2008/05/23

Tele-botica, boa tarde, em que o posso ajudar?

Quantos de nós nunca recorreram aos serviços da telepizza ou similares?
Em breve poderemos também recorrer aos serviços da tele-farmácia ou da net-parafarmácia... Why not? - Note-se que concordo inteiramente com a nova funcionalidade dos serviços farmacêuticos, mas não resisto a imaginar umas cenas...
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Ao balcão da farmácia, junto ao telefone: A menina do call-center boceja de forma sonora e suspira.
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Numa sala com papel de parede florido: Uma ruiva espaventosa recusa fazer sexo desprotegido com o amante. Ele hesita entre a irritação e o desespero alguns segundos, e tem uma ideia luminosa:
- Tens o número da tele-botica?
A Ruiva faz uma expressão de aprovação e estende-lhe um cartão-de-visita.
A menina do call-center estremece, deixando cair a lima de unhas no regaço.
- Tele-botica, boa tarde, meu nome é Gáu, em que o posso ajudar?
- É para encomendar 1 caixa de preservativos familiar.
- Concerteza, massa fina ou grossa?
- Hum... grossa, acho... ...hum... claro.
- Concerteza. Por cada caixa familiar tem direito a um preservativo individual...
O Amante franze a testa com exagero e rosna:
- Individual?... sozinho não preciso preservativo...
- ...ou a um frasco de anti-séptico ginecológico.
- Hum... pode ser isso.
- Tem preferência pelo aroma?, temos morango, chocolate, e baunilha, banana está esgotado.
- ...´dassssssssssss!
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Na sala de chuto:
- Meu, abona-me aí o telemóvel, acabaram-se as seringas.
- Deixa-te de mº£#%*$ Man, para quê?
- Passa aí Meu! – O Man acerta as costas da mão no ombro do Meu, que o sacode – Dá-me o telemóvel!
A menina do call-center estremece, deixando cair o alicate de unhas no regaço.
- Tele-botica, boa tarde, meu nome é Gáu, em que o posso ajudar?
- Oh chavala manda-me cá o motard com uma dúzia de seringas.
- ...?
- Daquelas do programa de trocas. Ah, e 3 ou 4 limões sumarentos.
- Desculpe, talvez seja engano, ligou para a tele-botica.
- Cº£§*%#&, e eu não sei!?! Mexe mas é essa cº%§@ malcheirosa, oh vaca.
- É que limões,.. quer-se dizer... limões não temos.
- Fº%#£-$&, tás-m´a gozar chavala? Eu sei onde tu moras.
- Não, hã, hum, pois, já percebi. Não temos limões mas temos vitamina C efervescente com sabor a limão, laranja ou morango.
- Boot lá uma de cada, deve dar cá uma moca!
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Na ambulância dos bombeiros de Lá-onde-Judas-perdeu-as-botas: O motorista da ambulância, peludo que nem o Tony Ramos, vê-se em dificuldades para pôr o motor a trabalhar.
- Tens que vir Tina, atão não vês que não posso guiar e acudir à grávida?
Maria Albertina sobe a custo para a ambulância.
- Amanhão vai você explicar ao chefe porque não acabei de limpar o corredor!
- Tá bem mulher, liga mas é aí à tele-botica e encomenda gaze, algodão, álcool e… sei lá, pergunta-lhes o que é costume encomendar para partos.
A menina do call-center estremece, deixando cair o frasco de verniz de unhas no regaço.
- Tele-botica, boa tarde, meu nome é Gáu, em que o posso ajudar?
- Oh menina – a sirene da ambulância dificulta a conversa – Tóino, desliga o alarme, não ouço nada! Oh menina, aqui eu e o Tóino vamos fazer um parto, mas não temos material, usamos o algodão e as gazes a acender a fogueira de S.João...
- Mas… vão fazer um parto onde? …como?
- Atão!?!, fecharam a maternidade cá da terra, vamos buscar uma grávida na ambulância, mas da maneira que a pobrezinha balia já não chega ao hospital sem parir.
- Ah… não sei bem se percebi… Onde quer que mande entregar a mercadoria?
- Atão!?! Pelo caminho, carago…
- Ah..!, pois... ...poisss... E o que pretende encomendar?
- Gaze, algodão, álcool, …e que mais Tóino? Ah, pois, oh menina, que mais se costuma pedir para fazer os partos?
Num vislumbre de rara clarividência a menina do call-center lembrou-se de todas as telenovelas brasileiras de época a que tinha assistido, e respondeu quase gritando:
- Água a ferver, minha senhora, água a ferver!
- Então é isso, menina, mande 3 pacotes dos grandes.

2008/05/04

Apesar de ser mais um estratagema comercial, e blá-blá, e blá-blá, e o que era bonito era ser a 8 de Dezembro como dantes, dia de Nossa Senhora, e blá-blá, e blá-blá,..
Quem pode resistir? - As mães achariam ter sido esquecidas, ou menosprezadas, e os filhos seriam recriminados, ou sentir-se-iam culpados se não assinalassem a data...
E viva a Sociedade de Consumo, porque sim!, e viva o pretexto para uma boa tarde de conversas, e vivam as "pretextadas!"

2008/02/06

Automedicação

A lei portuguesa define 41 situações passíveis de auto-medicação. A lista foi elaborada em 2003 por representantes da Ordem dos Médicos e dos Farmacêuticos, da Associação Nacional de Farmácias e da Indústria Farmacêutica.

Sistema Orgânico Geral: Febre de duração inferior a 3 dias; Astenia de causa identificada; Prevenção de avitaminoses

Sistema Cutâneo: Queimaduras de 1º grau; Verrugas; Acne ligeiro a moderado; Desinfecção e higiene da pele e mucosas; Micoses interdigitais; Ectoparasitoses; Picadas de insectos; Caspa (Pitiriase capitis); Herpes labial; Feridas superficiais; Dermatite das fraldas; Seborreia; Alopécia (calvície); Calos e calosidades; Frieiras

Sistema Ocular: Hipossecreção conjuntival, irritação ocular de duração inferior a 3 dias

Sistema Respiratório: Sintomatologia associada a estados gripais e constipações; Odinofagia, faringite (excluindo amigdalite); Rinorreia e congestão nasal; Tosse e rouquidão

Sistema Digestivo: Diarreia; Hemorróidas (com diagnóstico confirmado) ; Pirose, enfartamento, flatulência; Obstipação; Vómitos, enjoo do movimento; Higiene oral e da orofaringe; Endoparasitoses intestinais; Estomatites ligeiras e gengivites; Odontalgias

Sistema Muscular / Ósseo: Dores musculares ligeiras a moderadas; Contusões; Dores pós-traumáticas

Sistema Vascular: Síndrome varicoso (terapêutica tópica adjuvante)

Sistema Ginecológico: Dismenorreia primária; Contracepção de emergência; Métodos contraceptivos de barreira e químicos; Higiene vaginal

Sistema Nervoso / Psique: Cefaleias ligeiras a moderadas

2008/01/30

A automedicação

... é um processo em que o doente assume a responsabilidade de melhoria da sua saúde, previne e trata os seus pequenos mal estares sem recurso à consulta médica
... recomenda-se apenas para alívio de sintomas não excedendo a duração de sete dias (três, para o caso de febre), e requer atenção especial na grávida, mulheres a amamentar, bebés e crianças
... está contra-indicada quando os sintomas são graves, persistentes, ou quando houver suspeita de reacções adversas responsáveis pelos mesmos

A sociedade, no seu todo, exigiu a possibilidade de se automedicar, e os profissionais de saúde não podem, nem devem, contrariar essa tendência. - É importante ir de encontro às necessidades manifestadas pelas populações, dar-lhes mais responsabilidades sobre a sua saúde, maior capacidade de escolha, e acesso aos cuidados básicos de saúde.

2008/01/29

Pode ir armando o coreto (...) Eu tô voltando (...) Muda a roupa de cama Eu tô voltando (...) Quero te abraçar Pode se perfurmar Porque eu tô voltando Dá uma geral, faz um bom defumador Encha a casa de flor Que eu tô voltando (...) Vai pegando uma cor Que eu tô voltando (...) Que eu só quero mesmo é despentear Quero te agarrar Pode se preparar Porque eu tô voltando Põe pra tocar na vitrola aquele som Estréia uma camisola Eu tô voltando (...) Diz que eu só volto amanhã se alguém chamar Telefone não deixa nem tocar Quero la la iá la la iá iá iá Porque eu tô voltando!

2004/09/02

abdução

ABDUÇÃO - cinto de explosivos de qualquer pensamento lógico

2004/08/19

(3) (vento salgado vindo de outros mares)

Raquel acorda com os braços dormentes, espreguiça-se com gosto agradada com o calorzinho da cama, espreita pela janela ao seu lado direito, um dia pardacento de Inverno como se o cinzento do céu se derretesse molemente envolvendo a terra com brandura, estranha que ele já se tenha levantado, imagina-o na cozinha. Com ligeiro remorso por se começar a sentir um pouquinho preguiçosa, egoísta, deixa-se ficar indolente gozando a temperatura agradável que a encobre, estica uma perna, aprecia o contraste dos lençóis frios do outro lado da cama, o lugar dele gelado. Dá-lhe 15 minutos para que lhe traga o pequeno-almoço à cama como tantas vezes fazia, mas como se continuasse sem ouvir um único som vindo da cozinha acaba por se levantar. Um arrepio magrinho percorre-lhe o corpo, sobe pela coluna vertebral como uma agulha até à nuca desalinhada, vacila, convence-se de que mais pelo tempo que sente através da janela do que pela temperatura dentro do quarto, que frio, frio, não está, arranca o edredom da cama e enrola-se nele. Pode assim caminhar teatral e pomposamente arrastando pela casa o seu Manto vermelho-sangue vagaroso d´O Poder.

2004/08/17

(2) (vento salgado vindo de outros mares)

Não suporto mais esta vida. Vulgar! Esta vida vulgar. Perfeita! Tenho uma vida perfeita. A minha vida é perfeitamente vulgar. Invulgarmente perfeita. Não aguento mais a perfeição desta minha vida vulgar. A vulgaridade da perfeição. Qualquer outro regozijar-se-ia com uma vida igual à minha. Vulgares! Bom emprego, um bom carro, uma boa casa, vivo com a mulher que amo e me adora, entendemo-nos às mil maravilhas, sexo com ela é o máximo. Fazer o quê para escapar a tanta vulgaridade? A vulgaridade está naquilo que os outros anseiam, não propriamente naquilo que têm!

(1) (vento salgado vindo de outros mares)

Raquel dorme profundamente já uma luminosidade pardacenta de Inverno invade o quarto, tranquila e confiante, ligeiramente inclinada para o lado esquerdo, um meio sorriso, os braços mal arrumados acima da cabeça, descontraída. Fitara-a toda a noite na penumbra sem conseguir adormecer. Irritado. Os olhos fixam-se na mais pequena das sete cabaças que trouxera da Amazónia agora dispostas no cimo do guarda-fatos velando constantemente seus pesadelos. Raquel baptizara-as - as nossas ´Marioskas`. (Lembram-lhe os tradicionais conjuntos de bonecas russas que se encaixam umas nas outras, sete cabaças, só a mais pequena não se abrindo pela cintura.) - Acredita que para o arreliar, mas na realidade revolta-o secretamente, desnorteia-o aquela inconsideração.
Tem vindo a sentir-se inquieto, uma turbulência antiga avolumando-se-lhe nas entranhas. O cenário doméstico em que agora se move transformara-o numa personagem descaracterizada, neutralizada com bem-estar e sopinhas-de-leite, sua personalidade única soterrada pelo estigma da normalidade. E outros cenários começam a reclamar o seu protagonismo: partir para bem longe, ou, simplesmente, voltar a matar.
Fixa o olhar em Raquel, dogmático, calculista, só um vendaval o poderá ajudar. Só um vento em fúria capaz de clarificar, triar das opções que já distingue a mais profundamente enraizada em si. Sorrateiramente levanta-se. Sai à chuva. Precisa respirar o vento salgado vindo de outros mares...

2004/07/10

Teste

Procriamos como coelhos
Quando nos derem pelos joelhos
Procriamos mais um pouco
Que eu adoro fedelhos

Escrevo o teu nome
___________________no meu corpo
P´ra toda a gente ver
Bem piroso e lamechas
Como o amor deve ser
___________________VERDADEIRO

Olá, Nina, Chega ao pé de mim
Deixa-me dar-te o que tu mereces
Tu és a resposta para as minhas preces
Senta-te aqui vou-te cantar um som
Doce como tu, como um bombom
Ehié eh Ehié Na-na-na-na
Ehié eh Ehié Na-na-na-na
Olá, Nina, Quero tratar de ti
Dar-te o mundo, o outro, tenho tudo aqui
Chega só um pouco perto de mim
Acredita que nunca me senti assim
Ehié eh Ehié Na-na-na-na
Ehié eh Ehié Na-na-na-na

Teste:
Quem canta este RAP?

(...e não se atrevam a criticar a letra antes de traduzirem alguns clássicos do Rock n´Roll!)

2004/03/28

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li "Ensaio sobre a Lucidez" num só fôlego e
desde então decidi passar a votar em branco

Saramago integrará uma lista nas próximas eleições
(bem sei que em lugar não elegível) e
desde então deixei de acreditar no Peter Pan

2004/03/10

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...e o poeta disse:

« as palavras dançam
em volta de mim
acariciam-me _ fazem-me festas
provocam tontas como adolescentes
vaidosas _ como adolescentes

não me deixam tocar-lhes
(...) »

2004/02/21

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Soluções:
1) Solução salina
2) Solução cutânea
3) Solução oral
4) Solução oftálmica
5) Solução extemporânea
6) Solução de continuidade
7) Solução de compromisso

2004/02/19

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Descubra as Diferenças
__ 7 DIFERENÇAS 7 __

1. Quando o mar bate nas rochas quem se lixa é a amígdala

2. Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia deixa lá a amígdala

3. Batem leve, levemente, como quem chama por mim; será chuva? será gente? (...) Fui ver: eram as amígdalas

4. Pela estrada plana, toc toc toc, guiam as amígdalas uma velhinha errante; como vão ligeiros ambos a reboque, antes que anoiteça, toc toc toc

5. Quem vem e atravessa o rio junto à Serra do Pilar vê um velho casario que se estende até às amígdalas

6. Há fascistas em Berlim e em Moscovo; é o discurso que de velho se faz novo; E eu e a amígdala o que é que temos que fazer...? - Talvez . . .

7 anos de pastor Jacob servia
a Labão, pai de Raquel, serrana bela
Mas não servia o pai, servia a amígdala
que a ela só por prémio pretendia

( Soluções no próximo post )

2004/01/27

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Santa Catarina está com depressão. A Rua. Diagnosticar-lhe-ia melancolia essencial nesta tristeza mórbida que a inunda mansa e lenta, persistente, fria, tranquila e desesperançada. Chovendo, anoitece, ela amortece, amodorrece, desacontece. Sendo os olhos da cidade, na escuridão chuva são as lágrimas que escorrendo a libertam dos grãos de poeira que nós somos. Santa Catarina não chora sangue, cera ou silicone, isotonias de toxinas nem cola de madeira. Chora água destilada!
Com caca de pombas, e os aromas das grandes metrópoles: carburadores mal-paridos, óxidos de carbono e batata frita do McDonald´s.

2004/01/15

Grande Entrevista de 15/01/2004
Dr. Mário de Sousa, Cientista
Uma mente do século XXII
Foi um fascínio, queria que todos tivessem assistido..!
A sério!, teve momentos tão, mas-TÃO enriquecedores, em termos técnico-científicos, obviamente, mas acima de tudo éticos, morais, teológicos, filosóficos...
Falava-se de infertilidade, fecundação assistida, a procriação como necessidade genética.
E veio a « semi-clonagem », que permite a produção de óvulos a partir de células sanguíneas. Já foi feito! (El País chamou-lhe semi-clonagem embora nada tenha em comum com a criação de réplicas de organismos, apenas a técnica usada se pode considerar similar.)
E veio a doação de órgãos versus doação de embriões para culturas tecidulares.
Mais a barriga de aluguer, a adopção, e as actividades humanitárias.

Ganhei o dia!
É tão pouco o que às vezes precisamos para nos sentirmos felizes! - Tomar conhecimento do Conhecimento já conhecido.
(Nem se pode dizer que sejamos muito exigentes.)

2004/01/13

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Então agora Plutão deixou de ser um Planeta..!?!
(- Já não se pode mesmo confiar em nada!)

2004/01/07

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elogio a ROTINA
(não resisto a dar um itálico -que-é-fogo-que-arde-sem-se-ver a esta palavra -que-nasce-não-se-onde para lhe aliviar a carga negativa que habitualmente carrega)

Raízes
que nos prendem à vida-do-dia-a-dia
implantadas em territórios já descobertos, seguros
que firmam as próprias encostas de que se alimentam
nos impedem de ser arrastados pelas correntes como areia, ou lamas viscosas

(Pessoalmente detestaria sentir-me lama viscosa nómada.)
É rotina acordar. Acordar é bom. Pelo menos é um bom sintoma!
É rotina o emprego. É bom ter um emprego. Melhor se se gosta do que se faz, mas bom mesmo que nem por isso.
E depois há aqueles pequenos rituais, chamam-se assim porque queremos poupá-los ao anátema, rotinas também, que nos dão uma aconchegante sensação de (auto-)confiança. Mais! - de Identidade.

Definitivamente:
rotina rituais hábitos costumes sempre mesmo perenemente
sinónimos de
segurança fiabilidade certezas incolumidade entendimento paridade constância
(e que se danem os dicionários, as gramáticas, a sintaxe, que não percebem nada de palavras!)

Ainda bem que o AnoNovo só alterou mesmo foi peanuts!

2004/01/06

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Afinal
eu estava enganada

(e trata-se de um acontecimento tão raro - hehehe! - que é justo se registe para a posteridade)

ALGO mudou com 2004.
(aleluia!aleluia!a esperança ressuscita, sininhos podem voltar a tocar, o Sol brilha, os passarinhos cantam, café fumegante será servido aos excelentíssimos passageiros do NovoAno)

. . .pena que para já só tenham notado os sortudos que passaram na padaria ou atestaram o depósito do carro. . .
Animem-se amigos e visitantes!, mais coisas mudarão, agora EU também ACREDITO!

2004/01/02

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2004
____Ano Novo (foguetes)
______________Novo Ano (fogo de artifício)
________________________Happy New Year! (e rufam tambores)
_______________________________________Feliz 2004_________tchã-tcharãm!

. . .não sinto nada. . .
de diferente, digo eu

(sabem aquele anúncio à água Frize?)

2003/12/31

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lógica.. (?!?)

SE cobiçar a mulher do próximo é um pecado capital
ENTÃO a fidelidade é uma virtude de subúrbio

OU ENTÃO o pecado é uma questão de proximidade...

Uma coisa, porém, é certa:
pode cobiçar-se à vontade o homem alheio
(independentemente do posicionamento espacial)
sem se incorrer em pecado mortal.
- Tem lógica!

2003/12/22

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« (. . .) e o caos é a partitura sobre a qual se escreve a realidade. »

in Tópico de Câncer, Henry Miller
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« Todas temos um gene masculino », mas o meu é gay.

2003/12/21

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Um bom prólogo pode salvar um livro
assim como um mau fim o pode assassinar.
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Um bom fim pode salvar uma alma
maus princípios condenam-na.

2003/12/20

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pre sente de natal
aquele que se sente antes de ser
sentido pensado sendo escolhido

antes de ser presente o presente
antes que todo o homem sentido irmão
antes que natal seja quando 1 homem quiser

porque se presenteia o ausente
porque homem não é o mesmo que Homem
porque jamais alcançarás 31 sem passar 25
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"Natal" escreve-se com 3maiúsculo
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Um bom serão pode salvar uma semana.

2003/12/15

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Escurecer numa cidade desconhecida, uma rua da qual sabemos apenas o nome porque o conseguimos decifrar na tabuleta da esquina, todas as portas fechadas, algum silêncio, as Janelas! Do nada que sabemos daquelas gentes concluímos tudo. Pelo cortinado. Pelo candeeiro de tecto. Pela nuance luminosa projectada da televisão. Pelo latido do cão. Pelo cheiro do refogado para o jantar. Por uma vela acesa. Uma sensação confortável de (re)conhecermos a privacidade alheia de forma não invasiva, não exigente, anónima. Anónimos entre incógnitos.

Igualmente confortável determo-nos em temas alheios à nossa formação específica. Dissecar um livro técnico como se de uma obra de ficção se tratasse, assim pela janela, errantes e desresponsabilizados. OutSiders por vocação, Vadios.
“Apanhei” recentemente um livro perturbador e não resisto a deixar aqui alguns conceitos, excertos de um capítulo que me apetece des(re)construir.

Capítulo em desconstrução: « Menores: autores ou vítimas de actos criminais? »
. . . da opinião pública. «(. . .) a criminalidade e delinquência juvenil trazidas a público (. . .) mais frequentemente como temática jornalística reflectindo, principalmente, considerações de insegurança, variando entre a temática do jovem vítima e a dos grupos de jovens autores.»
. . . da delinquência juvenil. «(. . .) haverá tendência para descurar a apreciação da realidade delinquente e anti-social à luz dos vários critérios possíveis, como sejam os biológicos, individuais, familiares, de grupo, etc. já que essas variáveis podem ser aplicadas ao início, continuidade ou no fim das condutas marginais (. . .)»
. . . dos gangues que o não são. «(. . .) se o gangue está comummente associado a grupos com rígidas formas de actuação e comportamento, tendencialmente imbricados em componentes e rivalidades étnicas e rácicas, poderemos dizer que não há (ainda) gangues em Portugal.»
. . . dos grupos ou bandos. « Será, então, que os jovens, num grupo que não escolheram, por exemplo os “colegas”, e quase fugindo de algum lado (a casa, a escola), se constituem num bando que se torna necessário para o recíproco apoio e aconchego? Tentarão, quiçá, apoiar-se para que não mergulhem “numa solidão absoluta” (. . .) e não serão mais que um resultado lógico da pressão social sobre os jovens (. . .)»
. . . da (in)terminologia (des)estabelecida. “criminalidade”, “delinquência”, “anti-sociabilidade” ou “perturbação do comportamento”; “criminosos”, “degenerados”, “tarados” ou “anti-sociais”
. . . dos graffities. (e eu adoro graffities!) «(. . .) os jovens que realizavam graffities no muro de uma casa, será um acto anti-social, uma incivilidade ou um crime? Se calhar todos (. . .)»
. . . da ocasião que “faz o ladrão”. « Aliados à preditividade, encontramos outros conceitos como o das oportunidades predisponentes e precipitantes. (. . .) Os espaços e ambientes constituem um exemplo das oportunidades predisponentes, pois fomentam novas sensibilidades que são anti-sociabilidades, novas cumplicidades que são novos interesses, novos mundos que são novas lógicas, enfim, são as “zonas intersticiais” pelas quais passamos sem as querer ver ou sem estarmos suficientemente despertos para elas.»
. . . da repetitibilidade das razões. « Modernices? Não. É curioso verificar que alguns dos sentimentos desenvolvidos pelos jovens de hoje foram já verificados nos adolescentes de Paris, em 1973. Ou seja, já há quase 30 anos os jovens se sentiam ostracizados, incompreendidos nos seus gostos, sem quem os ouvisse, sem alternativas.»
. . . da repetitibilidade dos equívocos. « Também hoje ser diferente se confunde com marginal, também hoje se compele sem convencer, também hoje se vive com eles mas não se convive.»
. . . e da amarga conclusão. «(. . .) de facto os menores não serão mais vítimas que autores de ilícitos penais ou de actos anti-sociais (. . .)»

in FORÇAS DE SEGURANÇA E INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA - Um espaço de reflexão (págs. 339 – 382), Dezembro 2002 / Ministério da Administração Interna

2003/12/13

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Acreditar que o amor é cego
é, provavelmente, sintoma de vistas curtas.

Bom Fim-de-Semana!

2003/12/05

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telecinesia

Uma necessidade imperiosa de falar com ela. Agora.
- Sim..?!?
- Sou eu. O que há de novo?
Acontecia-lhe cada vez mais amiúde, esta necessidade claustrofóbica de a ouvir.
Ao primeiro toque ela sorri-se, não precisa atender para saber que é ele.
Ao segundo ilumina-se. Atende ao terceiro toque. Invariavelmente.
( Primeiro nem notara, coincidência, bambúrrio, agradada apenas, sentira saudades, pensara intensamente nele, na voz morna, no olhar obscuro e meigo, nas mãos, Encontraram-se. Felizes. Depois saudades de novo, das mãos leves de dedos elásticos, do cheiro ameno de amante, da pele, Amaram-se. Felizes. Agora uma espécie de jogo, Deseja-o, ele irrompe, Quere-lhe a pele também já um pouco sua, meio suada, salgada e silenciosa, apetece-lhe a boca e os beijos, as cócegas, as mordidas Felizes. )

Ela gosta de futebol. Ele não.
Ela Capoeira, Ele Zen.
Ela o National Geographic. Ele o Canal História.
Ela vagueia na penumbra, Ele tem sempre as luzes acesas.
Ele fascina-a, Ela enfeitiça-o.
( A Vida afasta-os, junta-os a Vontade. Satisfação efémera. Imortalidade. Coerção. Compulsiva e deliberadamente condenados um ao outro, amortalhados na indispensabilidade um do outro, de se tocarem intermitentemente ininterruptos, controlo remoto, periclitantes, alienados. Alienígenas. Forasteiros na vida do dia a dia, na Vida, na Natureza, nas suas próprias naturezas. Errantes no mundo, em si próprios, um no outro, desgarrados, tresmalhados. )

- Sou eu. O que há de eterno?

2003/12/03

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acontece Homem

o berço hospitaleiro _ possessivo
obsessivo _ fortuna! _ e o umbigo
cordão tardio _ moroso
amoroso _ amorável _ carente
sentir anjo _ inspiração crente
sensibilidade _ brandura _ graça
olhar ternura _ profissão de Fé

libertação _ vocação: autonomia
insubmissão _ e o coração
mas a ira _ a revolta _ vigor
a candura _ a ternura inultrapassável
insegurança _ turbulência _ brutalidade
instabilidade _ desconhecimento
olhar perdido _ Socorro!

passo a passo o equilíbrio
trampolim _ a corda bamba
sem rede _ o colchão _ o chão
terra firme _ ancoradouro _ bem-querer
olhar certeza _ absolvição
apuro _ consciência _ rectidão
e o carácter _ acontece Homem

mariamãe, novembro/2003
_
amanhece Mulher

infância e coxinhas de rã
balbuceio _ encanto _ candura
alvura _ verdade incondicional
olhar cachorro _ olhar crente
transparência _ sinceridade
liberdade _ utopia _ inteireza
doçura _ e a Eternidade

pernitas de gafanhoto _ metamorfose
hesitação _ comprimento súbito
desarticulação _ ingerência
resistência _ senão _ contrariedade
e a inocência _ e a suspeita
olhar esquilo _ espantadiço
olhar incerteza _ e a Esperança

fémures de gazela _ prolongamento
esculpem-se as formas _ escalpelizada
abre-se a mente _ apetite _ surpresa
olhar futuro _ horizontes _ dunas
brumas _ resplendor _ tempestade
e a segurança _ recolhimento e paz
olhar inteiro _ amanhece Mulher

mariamãe, maio/2002

2003/11/28

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O sinal da cruz

nortada geada gelada algente
gelo regelo degelo
saudável saudoso impetuoso
franco firme autenticidade
sério impoluto incorruptível
níveo divinal afrodisíaco
intemporal bafo libidinoso
inspiração impulso criador
vento puro são Pecado Original
vento de sul cinzento aquoso golfante
promissor preia-mar celeste
vento orgânico de raios e abismos
ardente fogoso procissão de estio
profissão de fé bênção divina
dança tribal festividade agosto
vento generoso ditoso belicoso
bélico belo abençoado
vento de chuvas marés de Fertilidade
vento leste terreno terroso
poalha corpóreo somático espesso
empastado pastoso fecundo aromático
vento de gentes humanidades
povo espécie raça nós
vento quente almiscarado
sanguíneo sanguinário fraternal
suor paixão bedum
vento canibal de Gente
oeste vento fresco salutar
marinho doce agridoce picante temente
temeroso suave vento forte vigoroso
revigorante puro vento
liberdade libertação asas
voar e Voar firmamento
espaço caudal eterno inesgotável
extenso poderoso horizonte
alforria o Vento e Eu

2003/11/26

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Gosto de ciências exactas.
A Matemática dá-me estabilidade; sinto-me segura graças à Física; tropeço amiúde na Química, mas nela confio plenamente. . .
Viva a Filosofia!
Obrigada, esoterismo.

2003/11/23

Será..?

Será que sabes que hoje é domingo? (Pedro Abrunhosa, algures...)

Será que a única coisa que valeu a pena desde que “descemos das árvores”
neste processo de dita-evolução, suposta-civilização, é a Arte...?!
- Benvindo ao topo da cadeia alimentar!

2003/11/20

Gingko biloba

«A living fossil
are about the tree Ginkgo biloba and all its aspects.
This site exists because of my fascination and respect for this unique tree, a living fossil, unchanged since the time of the dinosaurs. It is the sole living link between the lower and higher plants, a symbol of longevity and is seen as one of the wonders of this world.
Maybe you are fascinated too after reading my site.
Cor Kwant»

in_ http://www.xs4all.nl/~kwanten/index.htm , a quem possa interessar

2003/11/19

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O trunfo é copas
eu baralho, parto e dou
q´eu é que sou a dona "da bola ":

1. Análise dados
1.1. objectiva, científica
1.2. intuitiva, empírica
2. Manipulação de dados
2.1. para endrominar os outros
2.2. para nos enganarmos a nós próprios

Debate - PRECISA-SE!

2003/11/18

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Que horrror,.. sinto-me doente..!

Os sonhos mais lindos sonhei...
Algures na ala esquerda do meu predio alguem ouve esta "musica de tapete e lareira". A estas horas.
...e... ...no W.C.? O som chega-me pelo mesmo "respiro" que me costuma trazer ecos
- de duches apressados
- de gilletes livrando-se daquela amalgama de espuma e fragmentos de barba na borda do lavatorio
- do classico urinar de-alto-e-certeiro do homem da casa
...
de quimeras mil, mil castelos ergui...
Por favor!!! - A estas horas!?!
horas de concretizar os sonhos, pesadelos e afins
horas do ranger das camas, das bocas abafadas para nao acordar as criancas...
e no seu olhar, tonto de emocao, com sofreguidao...
Sofreguidao ja eh um termo aceitavel.

Nao fora acordar as criancas e havia de tocar, bem alto!,
As saudades que eu ja tinha da minha da minha alegre casinha, versao Xutos,
Adoro as pulgas dos caes, (...), o riso das criancas dos outros
and so on, so-on, so-OFF
Nao me mostres o teu lado feliz, (...) Com lados felizes eu ja nao me iludo
(...) Toda a alma tem uma face negra, Nem eu nem tu fugimos ah  regra
(...) Mostra-me apenas o teu lado lunar

Os sonhos mais lindos sonhei..?!? Seria algum fetiche sado-maso?
´bora-la dormir!

2003/11/14

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Apelo a todos os compositores

Por favor criem músicas de Natal.
...sem Christmas bells e outros déjà vues...
Tantos sininhos e afins invariavelmente 2 meses por ano estão a matar o meu espírito natalício!
Bahr!

2003/11/12

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se conselho fosse coisa-boa ninguém dava - VENDIA!

Sugestão a quem se quiser deliciar: visite o site www.angedefeu.com

Chuac!
maria

2003/11/11

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Não me posso esquecer de agradecer a Deus todas as coisas que nos "correm bem".

...quando também o puder recriminar por tudo o que corre mal, pelo sofrimento, todas as arbitrariedades...

maria, novembro/2003

2003/11/09

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O teleférico estremeceu assustadoramente. Progrediu alguns metros ainda, aos solavancos. Parou. Abaixo de nós o mar.
Aparentemente ninguém estranhava esta súbita paragem, decidi entreter-me observando os companheiros de viagem: duas senhoras de idade, fortes, semelhantes em estilo e postura, com toda a certeza irmãs, e uma outra mais nova, de aspecto frágil, talvez doente; três rapazitos morenos e irrequietos; um casal septuagenário, boa apresentação mas um pouco carrancudos; e um homem de meia-idade, alto e de corpo atlético, com uma velhinha muito magra e enrugada a seu lado, olhando-se deliciados.
Apenas a nossa cabine parara, em ambos os sentidos continuavam a circular as outras cabines passando por nós como se não existíssemos.
O casal de idade, o Manuel e a Linda, começaram a falar, ele, enfastiado com o contratempo, a Linda tentando demonstrar que melhor seria aproveitarem o imprevisto, saborear a paisagem, talvez até a companhia... As duas irmãs, a Rita e a Maria, sentaram-se o mais confortável que conseguiram instalando os grandes rabos nos pequenos assentos junto a uma das janelas abertas para o mar, Senta aqui, Ritinha, dirigindo-se à senhora de aspecto doente, ...deste lado para não apanhares vento. , mas a Ritinha não se quis sentar, continuou meio debruçada a apreciar o movimento out there.
Maria dirigiu-se-me tratando-me pelo nome, Senta-te então tu, Maria Inês, aqui, ao pé de mim! Rita acenou afirmativamente, reforçando o convite. Sentei-me. O estranho casal, o Neca e a Luisa, parecia querer recuperar algo do passado, ela olhando-o com devoção, ele alisando-lhe a cabeleira toda branca com umas mãos de homem de quarenta anos apaixonado e meigo. Ritinha veio sentar-se ao meu lado e apoiou a mão demasiado magra na minha perna, esboçando umas palmadinhas ternurentas. O cabelo a grisalhar, os olhos esverdeados transbordantes de doçura e compreensão, os lábios finos arroxeados, a respiração meio ofegante.
Linda, senti tanto a tua falta...! , Linda sorriu. Aturara-lhe tantas resmunguices ao longo de toda uma vida em comum que era gratificante vê-lo reconhecer o afecto, o amor enorme que os manteve unidos ao longo de décadas, o companheirismo, a estima, a força da alma que lhe dedicara, e aos filhos. Os cabelos grisalhos de ambos misturaram-se num abraço estreito inspirado por muito, muito tempo de solidão.
Os três rapazinhos brincavam no pouco espaço disponível, corriam e faziam balançar o teleférico, Sosseguem, rapazes...! , e Rita encolhia os ombros, já sem paciência para crianças tão pequenas e buliçosas. Eram o Domingos, o Mingos e o Minguinhos. Estranha a sequência de nomes.
Estás melhor, Maria Inês...? , a expressão da Ritinha era de tal forma meiga e familiar, conivente e dorida, cúmplice sem amargura, que me fez arrepiar ao fitá-la. Tive a certeza de que ela sabia o que eu sofrera, e que gostaria de ter estado por perto para me ensinar a, se não entender, pelo menos aceitar. Tentei explicar-lhe as minhas dores e as minhas razões, falei como se a conhecesse desde que nasci, e ela apenas me ia respondendo ...Eu sei, Maria Inês, eu sei... com bonomia e um sorriso manso. Comecei a impacientar-me por ela, mas afinal quem era ela?, tanto saber, disse-lhe quase violentamente que só saberia quem tivesse tido, numa mesma pessoa, uma mãe, uma irmã e uma filha, querida a triplicar, e que lha tivessem extraído bruscamente e sem anestesia. Um sorriso pálido avivou-lhe as lágrimas.
Porque me deixaste, Neca? Nunca mais fui a mesma... , Luísa queixava-se lamentosa do abandono, preferiria ter partido com ele, na mesma hora e do mesmo jeito, que ...os filhos haviam de se ter criado à mesma!, tinham sempre as tuas irmãs, e eu..., eu fiquei sem ninguém... Ele sorria com sabedoria, acariciava-lhe o rosto e as fontes de trinta anos atrás e falava com ainda mais sabedoria, Fizeste um bom trabalho, Luisa, não te apoquentes... agora nada mais nos afastará um do outro!
Subitamente todos repararam em mim, e até os rapazes se vieram sentar no chão, bem perto, estranha e incoerentemente sossegados, apaziguados com olhares de anjos. - Rita queria que me dispusesse a bordar ou fazer malha na sua companhia, Linda convidou-me a tomar uma cevadinha acabada de fazer, Luisa contou-me uma história de embalar com laivos de opereta, Manuel tratava-me por mafarrica querendo fazer-me cócegas, Maria queria que lanchasse com ela, arroz de tomate torrado e crista de galo na chapa, e Neca velava os meus passos, para que nunca tropeçasse, como se sempre o tivesse feito. A Ritinha continuava com a sua mão demasiado magra apoiada no meu joelho e fitava-me, encantada.
Passou por nós, através de nós, uma outra cabine de teleférico com um casal, duas filhas adultas, e duas crianças, e foram os únicos a dar conta da nossa presença imobilizados no tempo e no espaço. Acenaram-nos animadamente à excepção de mim, mas só eu retribuí.
Estávamos a 2 de Novembro, Dia dos Fieis Defuntos.
Neste ano eu recusara-me liminarmente a percorrer os cemitérios onde visitávamos os nossos mortos.

maria inês, novembro/1999

2003/11/07

Porque chove na eira?
e nos adros das igrejas, nas casas em obras?
nos convés dos barcos? nos carros lavados?
Porque chove nos fins-de-semana?

maria, novembro/hoje

2003/10/25

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...reavaliando o conceito de "Zulmira"

Se calhar já fui demasiadas vezes A Primeira.
A 1a filha, 1a neta, 1a sobrinha, 1a mulher...
Se calhar fazia-me bem saber-me, sentir-me!, A Última.
A definitiva.

maria manuel, outubro/2003

2003/10/17

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capoeira

círculo perfeito a figura com menor relação área/perímetro
um círculo mais-que-perfeito
as figuras com maior relação energia/espaço
os tambores, os batuques, as vozes
pés descalços, calças largas, brancas
t-shirts claras, peles escuras
o ritmo, a dança, concentração
tambores, batuques, e as vozes
os gestos
a dança-agressão, malignidade, faz-de-conta
os encontros, os recontros
desafios e duelos
simulação, credo, convicção
performance
arte, tambores, batuques
e vozes
o círculo no pretérito dos tempos
figuras
relações

2003/10/14

carta-aberta à primeira professora do meu-Manel:

Ex.ma Senhora Professora
D. Isabel Maria
"Quando Deus quer melhorar o mundo encarrega-se pessoalmente de criar um ser como o Manel. . ." (palavras suas) . . .mas, antes disso, providencia uma professora do 1º ciclo igualmente especial . . .
- Tão sensível que capaz de lapidar a sensibilidade de uma criança sensível
- Tão lúcida que capaz de proporcionar tranquilidade à mãe-galinha dessa criança
- Tão especial, e ao mesmo tempo tão natural e verdadeira, que as pessoas até podem esquecer-se do quanto é especial . . .
Professora Isabel Maria, acredite!, quando Deus a criou a si também foi com o intuito de melhorar o mundo!

Era uma vez uma mãe galinha que trazia a filha mais velha na escola EB1 n.º47 e pediu para que o caçula ficasse no mesmo horário. Por um qualquer erro de secretaria tal não aconteceu, e a tal mãe, no tal primeiro dia de aulas, lá foi, meio constrangida, com a tal cria pela asa, tentar resolver o tal problema. Destinaram-lhe uma turma onde não havia ainda professora. Por mão do destino foram parar à SUA sala. Mediante a minha inquietação a professora disse qualquer coisa como, meio-encolhendo os ombros, “Quem tem 23 alunos do 1º ano também fica com 24, pode deixá-lo comigo!”, e acrescentou o nome do Manel à sua lista já tão grande de pequenos Calimeros.
Mãe e filho não podiam ter tido mais sorte!

O Manel ficou apto, em termos de conhecimentos, a frequentar o 2º ciclo graças à excelente professora que teve no 1º ciclo, (a professora Isabel Maria,) à sua facilidade em aprender, à ajuda da avó, ao facto de ser bastante aplicado. . .
. . .mas se está emocionalmente apto a enfrentar o 2º ciclo deve-o A SI!!!

Obrigada. Mil vezes obrigada!
Obrigada por existir, por se assumir, por SER!
Amãe do Manel

P.S. - Estou convicta de que anda "por estas bandas", por favor deixe seu contacto no meu e-mail, PRECISO lhe reiterar os votos de um Feliz Natal neste Dezembro..!

2003/10/13

um homem só - cenas do próximo episódio

O novo testamento. De Guilherme.
Maria do Carmo vai recuperar o filho.

2003/10/12

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Ouvi ontem uma frase extraordinária, e mais uma vez recupero a esperança na espécie humana, que delícia de conceito!:

"O futuro depende muito de mim"
(Ricardo Carvalho, no final do jogo Portugal 5 - 3 Albânia)

A sério, 6 palavras que dizem tudo:
- o futuro depende não só de mim
- posso, em grande escala, influenciar o meu futuro
- tenho influência directa e pessoal no próprio-FUTURO

Maria-Manuel-que-ainda-se-encanta-com-pequenas-coisas
_
Nobel da PAZ

- O que se espera de um Papa?
- O que fez Sua Santidade o Papa João Paulo II para além do que se esperava dele, na sua aura de Bondade, de apelação à Paz-Mundial, de Conservadorismo retórico? Que riscos emocionais correu?

Confesso ter acreditado que estava no papo do Papa, o Prémio. (Não fora por mais nada por ter os dias contados, coitado!, que quem andou não ter p´ra andar. . .)

Não conheço, nunca tinha ouvido falar na senhora que ganhou o prémio este ano, (confesso a minha falha,) mas quero crer ser uma intervencionista activa e cirúrgica, e polémica também, se não for pedir demais. . .

Maria Manuel (que gosta de "incomodar")

2003/10/11

_
A Inês-teenager idolatrava Florbela Espanca. Sabia-lhe a biografia, amores, perversões, dores e sonetos de cor. A cada revés amoroso fazia corresponder o respectivo soneto.

Hoje concluo: a idade mental de Florbela Espanca nunca atingiu as 20 Primaveras.

Maria Inês Camelo, Outubro/2003

2003/10/08

a pedido do meu amigo Jorge,
"o outro lado do circo", publicado em Contos & Sentimentos como "Frustração"

Queria. . .
Do cão a dedicação
A ternura de um gato
A paixão de um leão
A graça de uma foca
Do faquir a precisão
Sexo com um trapezista
Força de um urso pardo
Mistério d´ilusionista
O humor de um palhaço
Versátil contorcionista
Da cobra a discrição
Potência d´um elefante
Dos músicos vocação
Da pantera a agilidade
Do cavalo a distinção

(o outro lado do circo)
Crueldade de leão
O hálito d´uma foca
Pantera sem compaixão
Leveza d´um elefante
A indolência d´um cão
Mentira d´ilusionista
Disciplina de faquir
Palhaço maniqueísta
Traiçoeiro, infiel gato
Ambíguo trapezista
Da cobra a ingratidão
Violento urso pardo
Contorcionista aldrabão

mariabulac 2001

2003/10/07

um homem só (IV)
Carolina força-se a ocupar o lugar do pai na secretária de mogno negra. Retira a fita-vermelho-branca desencorajadora colocada pela polícia, senta-se na cadeira exacta da morte do pai.
Respira fundo, (tão fundo quanto a pressão que sente no diafragma lhe permite,) para começar por se debruçar sobre seu irmão: Tráfico de droga da Colômbia, a sua expulsão de casa, da família. Custa a Carolina acreditar num João dealler. Consumo próprio, talvez. A tradicional estória, concerteza - Um pai espartano exerce demasiada pressão sobre a juventude dele, exige-lhe demasiado, ele cede à tentação, acha conseguir controlar A Cena indefinidamente. Perdera-se pela cidade sem se afastar muito, (típico da sua afectividade, sentimental, não renegara o local onde vivera feliz,) trabalhara num posto de abastecimento de combustíveis, num bar da marginal, depois numa chafarica marginal, a prisão por posse de droga, (o coração de Carolina insurgente sabendo-o marginal,) João arrumador de carros, um casamento, uma desintoxicação, um emprego patrocinado pelo pai, uma filha, (pobre criança?) e de novo a prisão... Carolina chocada e confusa. Vontade de correr até ele, abraçá-lo, pedir perdão em nome do pai, da filha, (e do espírito santo,) em seu próprio nome e no da mãe, em nome do filho, João, trazê-lo de volta. Desculpar-se pelo mundo inteiro, pelo destino, pelos desatinos do mundo inteiro, Pedir Perdão.
Perdão pelos filhos ilegítimos, 2 gémeos afinal. Pela sua existência. Guilherme vivera uma paixão paralela com a mãe deles, e por morte da Clandestina assegurara-lhes o futuro, mantendo-se na sombra, omisso por amor a Maria do Carmo.
A rapariga no transitário através do qual movimentava a mercadoria.
O rapaz na galeria. Humberto.
Como se o pai, separando irmãos, os reagrupasse, baralhando as figuras desse oportunidade ao amor fraternal, Noémia anjo da guarda de João, Humberto de Carolina. Poderia ter corrido mal. Poderiam ter-se apaixonado, seria fácil a Carolina enredar-se na doçura de Humberto, a Noémia na gentileza de João, mas na época não seria provável, nem plausível, tem que concordar. Apenas um risco. Como se os monitorizasse, os manipulasse por controlo remoto. . .
Pessoa estranha, seu pai, mais estranho ainda do que aparentava. Definitivamente, ninguém o conhecera. Guilherme fazedor de destinos. Traçara criteriosamente o de cada filho, planeara seus futuros ao pormenor. . . garantira-lhes a estabilidade possível. Entende agora que não o tenha incomodado a traição de Pedro, seu ex-marido, ele apenas trocara uma filha pela outra, genro em ambas as opções. . .
As provas contra Pedro. Provas que ilibam qualquer dos filhos de qualquer ilegalidade, tráfico de arte, de droga, de armas. Carolina fascinada pela argúcia do pai. Pai-homem-estranho. Cada vez mais estranho, não consegue deixar de começar a simpatizar com ele. Um visionário. Um premonitor. Maquiavel paternalista.
Maquiavel amoroso à sua maneira, desajeitadamente, veja-se a carta para a mulher, Mãe!, Ela acorre, temerosa, Lê-la-emos juntas. Haveria duas mulheres na vida do Guilherme solteiro, ele decidira-se por Maria do Carmo tarde demais, na gravidez dos gémeos d´A Outra. Confessa a sua culpa, afiança fidelidade desde o dia do casamento, garante um imenso-e-eterno amor, desculpa-se pela sua inépcia em o demonstrar, pede perdão. (E pede que a sua morte seja investigada manifestando uma enorme vontade de viver, ambas se compenetram de que nunca se suicidaria.)

2003/10/06

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O oásis, tal como o deserto, é um estado de espírito.
Podemos é ter mais oásis que deserto
mais deserto que estado de espírito
mais estado de espírito do que oásis
ou mais areia que o deserto.

2003/10/02

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Podemos demorar anos a descobrir que no oásis que perseguíamos nunca houve mais do que areia.

areia na cabeça?
areias movediças. . .
muita areia na engrenagem!

Maria Inês Camelo

2003/09/28

um homem só (III)
Era quase manhã quando a casa repousou, mãe e filha sem dormir nem vontade de o fazer. Sentaram-se na sala com um bom chá bem quente, e, fosse pelo vapor que se elevava rente ao nariz, levemente floral, adocicado e ácido, fosse pelo sabor aconchegante, Carolina julgou ver um brilho de ternura nos olhos da mãe. À terceira chávena, (nos tempos em que Maria do Carmo ainda sentia costumava sentenciar, até a despropósito, que Chávenas de chá, nunca menos de 3 nem mais de 30,) sorriu-lhe discretamente, um sorriso de tí­mido bem-querer, à  quinta chávena chamou-a para junto de si, e à  sétima começou a falar.
Casara muito cedo, (um daqueles casamentos convenientes, ela linda, hesitante, ingénua até dizer basta, ele falido mas com uma enorme vontade de singrar,) para muito cedo se decepcionar com o casamento. Semanas antes de dar à  luz o seu primeiro filho uma mulher exultante, garrida, geniosa, apresentara-se-lhe à  porta de casa. Trazia um vestido solto, ainda pré-mamã, e um bebé numa seira, O Gui prometeu ajudar-me a criar a criança, mas há meses que não o vejo. Não saio daqui sem falar com ele, ele que nem pense... Inconscientemente Maria do Carmo percebeu tudo de uma só golfada, a sensaboria do namoro, a indiferença no noivado, a falta de entusiasmo na cama. Cambaleou, sentiu os joelhos falharem, tentou proteger a barriga com os braços.
Reencontrara-se na própria cama, sozinha, fortes contracções no baixo ventre, percebendo grande discussão no andar de baixo, e um choro aflitivo, quase sufocante, de bebé. Nunca falara no assunto. Guilherme também não. Nada sabia da tal mulher, da criança, da ajuda que Guilherme por certo lhes dera, do sentimento que os juntara... nada!
Carolina começaria por procurar a criança nos documentos do pai, aqueles, aferrolhados no cofre do escritório, o cofre cujo segredo sabia há muito, nunca usara, que encerraria segredos que nunca ousara. Uma excitação temerosa, um aperto entre o estômago e o coração, (como se os dois órgãos de alguma forma se unissem nela,) uma leve zoeira entre os ouvidos e o cérebro, (como se se tivessem quebrado as ligações entre eles,) os dedos esguios fazendo rodar os botões cromados meio carcomidos, um por um, depois rodar a espécie de volante que destrancava a porta usando ambas as mãos... como sonhara, em criança, protagonizar aquele gesto!
Ao completar quinze anos o pai confiara a Carolina o segredo do cofre para que o abrisse após a sua morte. Ela nunca sentira sequer a tentação de o fazer até à data, fazia-o hoje porque imperioso e inadiável. A porta escancarada, sentou-se no chão, protelada, sem apetite de penetrar aquele esconderijo de recônditas inconfidências. Sabia nunca ter conhecido o pai em profundidade, (suspeitava que nunca ninguém o conhecera assim,) e custava-lhe sobremaneira desvendá-lo postumamente. Um certo receio revestido a respeito e embainhado por um afecto inevitável era tudo o que lhe suscitara a figura paterna.
Contactos com fornecedores e clientes, muitos. Judeus, indonésios, paquistaneses, brasileiros, afegãos, japoneses, índios americanos...
Números de contas bancárias em paraísos fiscais.
Uma biografia actualizada de João, seu irmão excomungado.
Uma carta para a mulher.
Um testamento.
um homem só (II)
Carolina, filha de Guilherme, não acredita em coincidências, em mandinga, em bruxas e afins, como não acredita na teoria do suicídio. Mais ao estilo Teoria da Conspiração - Algo se passou naquele escritório. São as paredes que o transpiram, é a cadeira diante do pai, descentrada, enviesada, são três as marcas de cigarros ali fumados, é um odor rotineiro não identificado que se acrescenta ao cheiro do encerado, dos livros velhos, do sangue que seca. E a carta de despedida escrita no Microsoft-Word nada ao estilo do pai, tendo papel e a sua inseparável Parker por perto, Que nunca nenhuma maquineta se imiscua entre nós e os nossos sentimentos. A polícia recolhe amostras, dados, depoimentos, não pressentimentos ou odores.
Ela fareja crime.
A viuva permanece neutra e amorfa. Nem surpresa, nem consternada, nem enlutada, neutra e amorfa como todos os dias desde que ele lhe amputaram o filho. Atende o telefone, acompanha os polícias, trata com a funerária, informa amigos e familiares. Parca em explicações, nula em sentimento. Apenas a filha não estranha a sua reacção, sabe não se tratar de estado de choque, rejeição da realidade, sabe que Maria do Carmo perdeu a capacidade de sentir.
Apenas a sua carcaça sobrevivera à ausência do filho, (porque Guilherme o expulsara,) resignada e amorfa parecia vegetar, uma sombra silenciosa movendo-se indelével pela casa, assegurando o perfeito funcionamento das estruturas familiares sem o seu envolvimento pessoal, sem emoção, sem alma. A Carolina magoava aquele desinteresse assumido.

2003/09/26

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Há muito-muito tempo, era eu uma criança…
...com 2 primos e 1 irmã fundamos 1 clube, com cartões de sócio plastificados, quotas proporcionais à semanada tipo testemunhas de Jeová, senha e contra-senhas personalizadas, tudo a que um clube tem direito!, éramos os 3+1, inventamos o kara-o-ke, o “você decide”, a prosopopeia da banda desenhada,..
Um dos exercícios era dar continuidade a uma estória, cada 1 por si, e comparar resultados na reunião seguinte.

um homem só (I)
Um homem só, por querer, Faz mais que dez, por dever... só, por querer, Faz mais que dez, por dever... querer, Faz mais que dez, por dever... mais que dez, por dever... por dever... Um homem só... homem só... só... só...
O provérbio alemão torce-se e retorce-se, contorce-se na protecção de écran, única animação do escritório. A cabeça de Guilherme sobre a secretária, inclinada sobre o lado direito, sobre uma dúzia de documentos. Sobre a secretária um relógio de bolso em ouro com o respectivo cordão centenário, um candeeiro apagado apesar de ter anoitecido há já algumas horas, algumas esferográficas de hipermercado, uma Parker inoxidável gravada, cinzeiro com poucas priscas, (uma tem batom,) e um telemóvel que foi topo de gama na década passada. Os braços pendem ao longo do tronco rendido, o cadeirão desconfortavelmente recuado, as pernas abandonadas a uma postura pouco distinta.
A mulher assoma com discrição japonesa, Vens jantar..?, e segue pelo corredor pesado. Volta atrás, estranha, indagativa, penetra no escritório, Guilherme...?!? Coloca-lhe a mão no ombro, abana-o ao de leve, (cai-lhe no pé a pistola que ele segurava,) sob a cabeça papéis ensopados de sangue espesso.

2003/09/22

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Vai chover.

2003/09/21

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...e hoje queria chamar-me Adélia
ou Adelina, Alberta, Alda, Almerinda,..
ou então Amélia (e ter um destino fabuloso)

só que continuo a sentir-me Zulmira.

2003/09/16

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Sempre tive a mania da ordenação alfabética,
a única organização lógica para processos ilógicos.
amargo, banido, cáustico, daninho, embargado, furtivo, geado, hi-fi, isolado, Job, kamikaze, liburno, mea-culpa, nevrálgico, olvidado, preterido, qui-pro-quo, rejeitado, sonegado, tutti-quanti, usado, venoso, wc, xô!, yes, zero-à-esquerda
Eu devia chamar-me Zulmira.

2003/09/12

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(…) Lembras-te daquela noite de chuva?
a água disputando-nos à escuridão. Muito frio na serra
Frio embebido em nuvens, embebidos nós um no outro
na reserva de calor de abraços acossados
Acossados por existências inconciliáveis
Tu e Eu, nunca Nós
Aceitaste a precariedade, a fugacidade, a volatilidade
E não me preveniste. Capricho? Fantasia? Especulação?
Não me alertaste. Eu não me precavi
Doem-me os teus silêncios, tropeço em tuas reticências
quase me acabo nas tuas entrelinhas. Nessas!
que nem sempre sei interpretar e magoam do mesmo jeito
Entre isto e aquilo opto pela mágoa
Ilusão, Miragem, Delírio. Porque me deixaste acreditar?
Confiei...
confio ainda embora não saiba em quê nem porquê
quero crer saber que me amas. Quero. Mas não sei se creio
Iludo-me
Alimento desgarrada uma redoma, um mundo, um universo
finjo-me certa de que é nosso, que lá somos unos e felizes
Mas olho em volta e não há ninguém
Ninguém duas vezes – a tua ausência e o meu vazio de mim
Extraíste-me a chama que me acoroçoava, a paixão
Impunha-me a tudo o que fazia, vegeto agora
O cinzento da tua alma invadiu os meus olhos e o céu
o negro da tua íris sobrepõe-se ao meu sorriso, à lua e às estrelas
e a opacidade da tua existência inunda-me as lágrimas, apaga o Sol… (…)

Maria Inês

2003/09/09

_
instantaneidade

Varanda ; Amurada ; sete da tarde
em pleno centro da cidade ; SÓ
trânsito compacto ; cardumes de lata
correntes de ruído urbano ; marulhar
filas condensadas ; maresia carbónica
sargaço encapelado ; e buzinadelas
Tanta gente com tanta pressa de viver
mal-humorada ; Avareza de viver
cada instante ; mal-humoradamente

Despertares carrancudos e apressados
peregrinações angustiosas até ao emprego
sobrolhos franzidos ; faina contrariada
regressos cansados ; enfadados
adivinho o tédio reservado para o serão
abstinência ; impaciência ; desapego
repousos rápidos ; mal-dormidos
carrancudos ; amotinados ; num viver
cada instante ; insensivelmente

Para quê a pressa ; esta instantaneidade
e o momento contíguo semelhante ao actual
esta necessidade masoquista de alternar
etapas de mau-humor ; precipitadamente
precipício ; derrocada ; desolação
Caos ; A diferença entre ramerrão
e perpetuidade ; segurança ; paz
adivinho o prazer clandestino no viver
cada instante ; demoradamente

mariabulac, 2002

2003/09/06

_
- Já viste como está a lua?
- ...aih quem me dera um lobisomem barbudo...!
- Maresia e Alecrim
- Eduardo-mãos-de-tesoura
- O gato que ensinou a gaivota a voar
- Bons Sonhos, viva o Peter Pan!!!

2003/09/03

_
planando

Há gaivotas no ar
olhares de rapina assolando a cidade
asas cobiçosas ; salgadas de mar
memórias de oceanos ; maresias
espuma alva salpicada de vento
Planam famintas ; saudosas de infinito
sequiosas ; nostálgicas de marés
expatriadas por ventos possantes
correntes de algas arrancadas às rochas
ondas pulverizadas ; chuvas salgadas
névoa ; Saudades de infinito
Lembranças de um pôr-do-sol ardente
fogos e afagos ; Sonhos de luar
A noite escorre por entre a chuva
discreta e mole ; limalha de nuvens
E debruço-me ; E a chuva recebe-me
E uma rajada súbita gela-me ; abala-me
Embala as gaivotas
Outrora pombas povoavam o meu céu
Ingénuas ; Conformadas ; Pacíficas
pacificadoras ; Serenas como eu
(outrora)
O voo tranquilo ; algo inseguro
agora decidido ; vigoroso ; tenaz
o arrulhar sonhador ; apelos e protestos
migalhas de pão ; busca e predação
pombal doméstico ; a ânsia de liberdade
olhar cândido ; impertinência e pertinácia
a fragilidade dá lugar a dureza
doçura a determinação ; adejar a planar

mariabulac, 2002

2003/08/29

Conto: Menção Honrosa – Rotary Club, 2002
uma Cotovia prematura empurrada pelo irmão Cuco

Frutos vermelho-estridente aferram-se ao caule da planta tentando resistir incólumes ao calor escandaloso dos dias de Verão. Num universo de terra seca, clara como palha seca, erva seca, de um bege espesso e poeirento, os tomateiros regozijam-se com o regadio solícito que lhes anima os frutos. Alguns, de tão sôfregos e maduros, têm a delicada pele rachada, túrgidos, deixando entrever a polpa carnuda.
A apanha do tomate. Dezenas de tarefeiros contratados a eito, à hora, ao dia, dia após dia. Ganga sovada e sapatilhas meio apodrecidas, Pedro junta-se-lhes. Tomate após tomate. A fragilidade dos frutos alonga-lhe os dedos delgados, recolhe-os um a um em ambas as mãos. Não conversa, não canta com os colegas, aparentemente nem os ouve, concentrado na mecânica dos gestos, um rendimento flagrantemente superior ao dos outros. Recebe o mesmo que eles no final de cada jorna numa letargia também superior à de qualquer deles. Ali mesmo arregaça a t-shirt puída para guardar a fortuna na bolsa que traz à cintura, deixando a moça que lhe paga a pensar que naquela barriga se poderia brincar ao jogo do galo, de tão desenhados e firmes os músculos, Até amanhã! Ele não lhe responde, fitando-a, surpreso, pela primeira vez. Os olhos dela seguem-no alguns passos. Ele não fala com ninguém, Menina, Esse só abre a boca para comer um tomate de vez em quando, Nem se junta a nós para almoçar, Também não traz merenda... Na agitação dos comentários ela ouve que Ele não é um dos nossos.
Pedro aprecia a visão da última camioneta de caixa aberta carregada de tomates maduros que se afasta pela estrada cinzenta. Uma mancha vermelho vivo lustroso diminuindo de tamanho e intensidade sob ondas de poeira e fumos, deixando escapar um por outro fruto que, resvalando da pilha trepidante, se espapaça no asfalto, se esfuma na canícula do fim de tarde. É hora de caminhar em sentido oposto, sentindo aposto, uma estrada esquecida no arrastar agradado dos pés. Uma imensidão de girassóis maduros até perder de vista. Um carreiro estreito, Propriedade Privada, e mais ao fundo um poço quase esgotado. Um chaparro desgarrado, cansado. Adora chaparros. Os seus pertences à guarda deste, lá no alto, suspensos. Recupera-os trepando com agilidade simiesca para se refrescar antes que o poço seque completamente. Aqui pernoitará tranquilo, para, assim que o Sol-do-dia-seguinte se erguer, regressar à apanha do tomate. Aproveita todas as oportunidades de trabalho que se lhe deparem pelo caminho, a isso se obriga desde que deixara a sua aldeia lá muito a Norte.
Referências femininas, referências acromáticas, referências circulares, uma cadela perseguindo a própria cauda, a avó, a mãe e a tia, as irmãs, a prima, a gata, as oliveiras e as amendoeiras, as vinhas, um mundo no feminino. Mais as galinhas e as coelhas para criação. Machos, só um de cada espécie. E Pedro condenado a agradar exageradamente ao sexo feminino, seja pelo olhar ilusoriamente atrevido, quase provocador de tão lavado, pela expressão meio desprotegida de cria carente, ou pelo corpo escorreito e enérgico. Cedo se começara a sentir assediado pelas fêmeas em idade de procriar. (Se no eclodir hormonal a situação até que lhe agradara, sentira-se depois perseguido, menosprezado, quase injuriado na sua condição de racional.) Crescera irritado com a denguice que se lhe enlambuzava em redor. Não fora a filha do médico e teria mesmo temido pela consistência da sua virilidade.
A garota, meio bravia, arraposada e geniosa, numa indisciplina que simultaneamente ofendia e apiedava, estranhamente engraçara com Pedro. Seguia-o nos seus passeios solitários pelos montes, à beira rio para o ver pescar, qual cachorro vadio em busca de dono, e ele adoptara-a. Ao pôr-do-sol devolvia-a aos pais, às cavalitas. Um casal estranho, o velho médico, permissivo e distraído, e a mulher, uma jovem amorfa quase inerte.
O corpito esguio assexuado de Inês começara anunciando o milagre da metamorfose. Era a cintura que se demarcava dos ossos da bacia, as coxas que se alongavam, os mamilos ganhando volume sob as camisolas vadias... O primeiro sintoma que chocara Pedro fora, ao segurá-la pelos joelhos, tendo-a sentada no cangote, a suavidade das formas onde antes encontrara ossos, Estás a ficar demasiado crescida para este meio de transporte, E ela rira com gosto estreitando-lhe o pescoço entre as coxas. Vapores lúbricos.
Desde esse dia perturbador Pedro começara a evitar contacto físico com a miúda, e, estranhamente, mais ela lhe procurava tocar, mexer, rondando-o e roçando-se nele sem cerimónia. A sua reacção nessas alturas – gotículas de um suor balbuciante nas abas do nariz, oscilações de voz, brancos na corrente de raciocínio, – deleitavam-na sobremaneira. Sem que ele se apercebesse, a perspicácia, inicialmente irreflexa, de Inês, fê-la despertar para um interesse físico no despertar da puberdade. Gaguejos e tartamudeios, no entanto, nunca encontraram nela eco explícito.
Afagado pela aragem morna dos fins de tarde, embalado pelo recolher da passarada, aconchega-se ao tronco do chaparro. O céu, ao longe e sobre as cabeças desanimadas dos girassóis, reflecte os fogos carnais do Sol em fremência. Sabe que foge de Inês, toda esta peregrinação para que se consuma ausentando-se dela. Decidira-o reconhecendo-se incapaz de resistir, enroscara-se ela nele, junto ao rio, Para lhe impedir a pesca, Para que lhe prestasse atenção, Para que a ouvisse. Repelira-a bruscamente. No dia seguinte deixara a aldeia. Suspeita ter visto nela pela primeira vez um olhar de mulher, entre a sensualidade, ao enroscar-se-lhe, e o despeito, sendo rejeitada. Esta dúvida maltrata-o, tortura-o, acompanha-o desde o primeiro passo rumo a Sul, alternando-se indigno e mártir. Sente Inês com uma ternura imensa, a sua puerícia e rebeldia, forças da natureza. Saudades. Mais do que da mãe ou das irmãs, do mimo doméstico, sente saudades de Inês. Da sua alegria invicta, da energia contagiante. Estreita-se à casca do chaparro até ao doer das vértebras, rodeia os próprios joelhos flectidos com o tesão com que a abraçaria a ela. Se ela fosse mais velha.
Se fosse mais velha tê-lo-ia seguido ela. Acordara sobressaltada na antemanhã em que Pedro partira, numa agitação viscosa, um sufoco acelerado, errante, sem assunto. Pequenas descargas eléctricas, saltitantes, desinquietavam-lhe as articulações, o corpo repelido pelo colchão, uma angústia tenaz na garganta, assomou à janela a tempo de o ver partir no contra-luz do alvorecer. Queria ter podido dizer-lhe que, fisiologicamente, era já uma mulher, Que o provocara intencionalmente, Que o seu corpo se esfomeava do dele, Que o desejava tanto como ele a ela... Não percebera a tempo de onde lhe brotara a sensação de bem-estar junto dele, o prazer de pele quando se tocavam. Desgastara-se no esforço de se ignorar, confusa nas próprias emoções, escondera-as de ambos, imprecisa e desafiadora. Assumia agora o sentimento e a gula. Ele partira perturbado, revoltado consigo próprio, culpando-se e acusando-se de pecados inexistentes, imoral e vicioso, por sua culpa. Mea culpa. (Enorme a tentação de chorar.) Fixou-se na vontade de quem se habituou a conseguir o que quer – Fá-lo-ia voltar!
Acordou dorido, as costas ainda apoiadas na árvore, ainda abraçado aos joelhos flectidos, suado e molhado. O seu primeiro pensamento para Inês. Cresceria ela a tempo? Cresceria para ele? Aliviado pela distância, um suspiro de regozijo na certeza que, graças à distância, (e apenas por ela,) não protagonizaria nenhuma indignidade. Atormenta-se com a sua meninice, os divertimentos infantis, a falta de malícia no olhar, maldiz-se pelos próprios pensamentos, seus desejos que recalca, que quereria encobrir até de si mesmo. Resta-lhe esgotar-se de trabalho. Ergue-se, lava-se, regressa à apanha do tomate. Recebe-o a moça que lhe pagara na véspera, o sorriso íntimo de velha amizade. Estranha-a demasiado produzida, detém o olhar no penteado cuidado, surpreende-a não se lhe detendo no decote rasgado. Propositado o decote. Propositada a indiferença.
Quando Pedro regressa ao chaparro A Menina lia à sua sombra. Fingia ler. Aproximou-se sem retraimento, Boas tardes..! Ela fingiu surpresa, sorriu, Não sabe ler, lá adiante diz “propriedade privada”! Eu gosto de girassóis, preciso de água, e lá não diz “proibida a passagem”. Ela fixou-se de novo no livro, desconcertada, ele subiu à árvore, recuperou seus haveres e, ignorando-a, foi lavar-se junto ao poço. Uma bonita rapariga acostumada a ser cobiçada, mas a aragem de irritação que lhe passou nos olhos não foi suficiente para lhe refrescar as carnes, vendo-o afastar-se livrando-se da t-shirt. Pedro consciente do efeito que estaria a produzir, ela segui-lo-ia hipnotizada. Decidiu prático permitir-se um pouco de prazer. Livre como o Sol e os sons que respira, e livre de remorso e culpa, não procurara fêmea nem seduzira esta mulher intencionalmente, aprazia-lhe o sexo como a qualquer adulto na sua idade.
Inês cai da árvore. Passara dias atrás de dias no alto do pinheiro que costumava trepar com Pedro vendo o rio escorrer brandamente, pensando, procurando um estratagema que o trouxesse de volta. E nada. Sem saber como, o quê ou o porquê, algo lhe estremece violentamente as entranhas, as pernas, a alma, e uma tonteira, uma atarantação. Cai como um fruto maduro demais. Como um maracujá dessecado, um pêssego esquecido ou uma pinha vazia. Ou como uma cotovia prematura empurrada pelo irmão cuco.
Algo perturba Pedro. Algo não identificado lhe corrói a tranquilidade, lhe acelera os hábitos, lhe esvazia os sentidos. Inquietação. Um desconforto anónimo injustificado. Apreensão, constrangimento, premonição. Vai telefonar para casa, saber da saúde e do estado de espírito, do desamparo, da saudade.
O campo de baixo, o seu preferido desde criança, o que se esparrama até ao rio, por trabalhar, que ninguém lá vai, as irmãs e a prima quase não saem de casa, amedrontadas com o acontecido, Que aconteceu? Vê lá tu que neste fim de mundo um meliante que continua por identificar violou a Inês, lá para baixo, junto ao rio... A pobrezinha nunca mais voltava, foram encontrá-la já noite cerrada, toda esmurrada, ensanguentada, amarrada a um pinheiro. O coração de Pedro pára. Inês? Sim, a filha do médico, que já está uma mulherzinha. O coração de Pedro voltou a bater, revolto, agora descompassadamente, no mesmo despropósito em que a respiração se desenfreava. E todos os órgãos num destempero solidário. Esquece os tomates, os girassóis, o chaparro, A Menina, a liberdade, a fuga. Dói-lhe a consciência e o sacrifício.
Não vos podia deixar sós, Que bom ter-te de volta, meu filho! A mãe rejubila, a avó reza, as irmãs tranquilizam-se, a prima reaquece, a tia benze-se, a cadela urina-lhe os pés, a gata roça-se-lhe nas pernas, as galinhas riem como concubinas excitadas, as coelhas querem dar à luz a maior ninhada de todos os tempos, as oliveiras dão azeite no lugar das azeitonas, as amendoeiras florescem despropositadamente, as vinhas embriagam-se, a população comenta, a mulher do padeiro acha poder ter mais sorte desta vez, a vizinha suspira sonhadora, a filha do padre agradece a Deus, a mulher do médico louva a Deus, (Deus encolhe os ombros resignado,) e Inês consegue o quer. Pedro. E Pedro voltou. Voltou para não mais lhe escapar. Nem resistir.
Encontram-se à beira rio, Telepatia. À sombra do velho pinheiro, à vista das mesma águas que escorrem brandamente, Pedro e Inês. Preciso-te para me curar. Inventam O Beijo. Abraçam-se. Sentidamente, delicadamente, apaixonada e ferozmente. As mãos dele escorrem-lhe brandamente dos ombros, as dela agatanham-lhe a pele meio suada, trepam, amarinham, cravam-se-lhe na carne. Definitivamente. Intercepta-o uma pequena mancha de sangue. Um sangue anacrónico, inesperado, imaculado. Prende-a pelos ombros, interrogativo, sacode-a.
Uma farsa.
Um estratagema para o fazer voltar.
Uma cilada para que a possuísse.

mariabulac, 2002

2003/08/20

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over-dose

as visitas ao C.A.T. ; o crânio esvaziado
ventos ciclónicos onde outrora houvera cérebro
poeiras radioactivas ; detritos orgânicos
lixos de anos em redemoinhos enlouquecidos
músculos dolorosos ; dor pungente no gesto
movimentos involuntários mais dolorosos ainda
prostração ; cruel revolta ; esforço vão
(mil tentações a cada esquina)
um pacotinho de pó branco ; algumas doses
alvará sem destinatário ou remetente
provocação ; apetência ; comichão
stand-bye ; alvoroço ; dias de susto
vontades contraditórias ; perturbação
abatimento ; trevas ; amargura
sentires embargados ; depressão

a seropositividade atinge-o de cernelha
depois de tantas pegas de caras ; indiferente
temente ; descrente ; inquietado e só
afastara de si este receio ; para bem longe
longe do pensamento
amaldiçoa agora todas as noites de amor
agora uma imensa ; única ; terrífica noite
sobrevoando todas as outras noites de amor
um amor maligno ; talvez mortífero
(não teve ainda enredo de pensar em si próprio)
decide-se tridente do Demo ; foice da Morte
vigor amaldiçoado ; desejo excomungado
seu corpo instrumento homicida
seu amor emboscada fatal ; mortalha
azar ; apenas azar ; ou punição

rejeita um Deus castigador ; apenas UM deus
entra numa igreja ; hirto ; determinado
não ajoelha ; não se benze ; exige apoio
vê deus encarcerado ; amortalhado em ouro
acabrunhando a fé dos homens ; bafejo lúgubre
há cera ardida ; flores compradas ; bafio
o olhar incomoda-se em redor ; a nave deserta
veludos e mais ouro ; castiçais de prata
ostentação
MAS os olhos de Nossa Senhora
um vitral deixa nos olhos Dela um raio azulecido
fitam-se por arrojados segundos ; talvez minutos
nos olhos dele ; impertinência ; incompreensão
nos da Senhora ; comiseração ; afago supremo
(é ele o primeiro a desviar o olhar)

sai ínfimo e fusco ; digno e sóbrio
captura-o uma reconciliação respeitosa
o ar torna-se fresco ; fácil e justo
o púlpito uma bancada de carpinteiro
folhas de outono por passadeira vermelha
O Caminho ; A Solução ; (le grand final)
Alforria

mariabulac, maio2002

2003/08/16

Conto: 1º Prémio – Rotary Club, 2002
PONTO FINAL

João quer retomar a sua vida normal, mas extraviou-se-lhe a normalidade. Perdido em si, apenas se vislumbra, embora a uma certa distância, embora de costas, quando o dia se esgota e Fernanda volta a casa com a filha pela mão. Uma visão dorsal e longínqua de si próprio, tudo quanto tem para oferecer a quem chega a casa, uma, apreensiva e carente, outra, carente e calorosa.
A desintoxicação. As visitas ao C.A.T., a cabeça completamente vazia, ventos ciclónicos onde outrora houvera cérebro, poeiras radioactivas, detritos orgânicos, lixos de anos em redemoinhos enlouquecidos, todos os músculos doendo, dores pungentes cada gesto, movimentos involuntários espásticos mais dolorosos ainda. Prostração, cruel revolta, mil tentações cada esquina.
Anestesiado, sentires embargados. A seropositividade atinge-o de cernelha, ao fim de tantos anos arriscando-se em pegas de caras. Temente, descrente, inexacto, suspeitoso, inquietado. Tentara afastar-se desse receio, arremessá-lo para bem longe, longe do pensamento, ...longe do corpo de Fernanda. Manter a ameaça longe do corpo de Fernanda, tudo quanto se propusera. Preservá-lo. Resguardá-lo.
Ela não o entendera. Ele não lho explicara, não suportara dividir com ela tão maléfico temor, uma hipótese, ainda. Amaldiçoava agora todas as noites de amor, noites que ela insinuara, provocara, seduzira, cega. Agora, uma imensa e terrífica noite sobrevoando todas as noites de amor, um amor maligno, talvez mortífero. Decidir-se-á tridente do Demo, foice da Morte, vigor amaldiçoado, seu corpo instrumento homicida, seu amor emboscada fatal. Entorpecido, surpreende-se ainda com o cinismo da sorte. Azar!?... Apenas azar. Ou castigo. Punição.
Não concebe um Deus castigador, apenas UM deus... Também não concebe SEU DEUS um fraco, impotente ante as forças do destino. Ou da Natureza. Seria a Natureza uma megera autoritária, casada com Deus, trá-lo-ia a reboque dos seus desmandos, renega também ESSE deus!
Entra numa igreja perto do hospital, hirto e determinado, não ajoelha, não se benze, prossegue firme até ao altar-mor. Pedir satisfações. Ou simplesmente O Porquê. Tanto dourado acirra-o. Revolta-o até à consciência de que a casa de Deus não é por Ele escolhida, os homens a construíram, a decoraram, a opulência testemunho de veneração. Percebe que Deus se sente pouco à-vontade, desconfortável, contrariado. Encarcerado, amortalhado na cascata ourejada até ao tecto, no reboco demasiado trabalhado acabrunhando a fé dos homens, no cheiro intenso a cera ardida e flores compradas que coalha o ar, bafejo lúgubre, bafio. O olhar incomoda-se em redor – A nave deserta, figuras humanas, além da sua, a dos Santos nos altares laterais, veludos e mais ouros, porcelanas francesas rococó, castiçais de prata, ostentação. MAS os olhos de Nossa Senhora. Um vitral esmera-se na lateral da igreja e deixa nos olhos Dela um raio de sol azulecido. O vitral dos homens subordinado ao vitral do além, os Seus olhos vítreos ridentes estranhamente viventes. Fitam-se por arrojados segundos, talvez minutos. Nos olhos dele, impertinência, vitral de incompreensão, nos da Senhora, comiseração, afago supremo. João é o primeiro a desviar o olhar.
Sai, ínfimo e fusco.
Sabe de uma igreja românica, digna e sóbria, sinal interior de riqueza. Fecha-se no último banco, madeira negra gasta e grave, sovado e austero o chão de lajes graníticas, a não-passadeira-vermelha em direcção ao altar, as paredes irregulares, frias, desguarnecidas, o púlpito uma bancada de carpinteiro. O ar é fresco, espontâneo, respira-se sozinho. Uma reconciliação respeitosa captura-o finalmente.
Vai reter Fernanda em si e contar-lhe. Nos olhos dela o afago de Nossa Senhora. Nos de João a mortificação do altar românico. Ela não quer saber, nada vai mudar, o seu amor por ele, o desejo ancorado sempre e só no seu corpo... Vão discutir, ele implora uma análise, uma apenas, certos cuidados, ela rejeita a ideia, abraça-o obstinada, fecha os olhos, encerra a mente, não-quer-saber-e-ponto-final.

Fernanda-só-olhos definha assustadoramente. A sua vitalidade em queda livre acelerada pela força da gravidade da situação, transfigura-se na recordação de si própria, uma lembrança difusa de pele translúcida, expressão vivaz, olhar travesso. Poderosas olheiras impregnam-lhe o rosto de lama e lodos, ossos inflados, articulações nodosas pouco capazes, faltam-lhe as forças, sobejam-lhe dores. Mais feliz, contudo, do que na época da revelação. João deixara de lhe tocar, se lhe dar, beijá-la até. Quisera tardio evitar-lhe o mal, O Mal que se instalara nela assim que o reconquistara regressado. Vai continuar recusando cuidados até que incapaz de se impor, agora que João a ama com mais intensidade e veemência do que Sempre desejando re-infectar-se nela com carácter igualmente fatal. Proporciona-lhe os derradeiros dias mais amados de todos os tempos, de todas as lendas, de todos os corpos, sorvendo cada dia com o encantamento de um primeiro e a voracidade desesperada do último. Observam passivos O FIM acorrendo veloz, adivinham-lhe o cheiro túrbido, os contornos dúbios e insinuantes. Ele sabe-se impotente, limita-se a vivê-la, com a certeza de que, vazio instalado pela sua ausência irrevogável, se sentirá brutalmente culpado. Acusável de desafiar o diabo, do seu silêncio covarde, da sua fraqueza carnal, da força amorosa dela, da condescendência com que aceitara o seu amor. Desafiara o diabo ainda e apenas mais um toxicodependente furtivo e deserto arriscando o próprio cadáver; calara-se para poupar Fernanda; desfrutara-a para a satisfazer; amara-a porque insofismável... Retractar-se-á após a sua morte, indefenso e cruelmente, com a valentia do desespero, a crueza do suicida, o gelo da auto-desconfiança. Desdém de si próprio. Querer-se-á linchado, banido, torturado, crucificado, cuspido, (execução sumária,) e só assim recuperará a capacidade de auto-comiserar-se. Dó do eu-que-padeço-tanto. Irritá-lo-ão as condolências, a solidariedade, a compreensão, essa quase-gentileza do Povo insulta Fernanda, e odiá-lo-á por tal. Ponto-final. Outro-João renascerá das cinzas. Das de Fernanda. Necessariamente.
Há flores e velas. E gente. Muita gente, algum pranto, condolências, e a caveira de Fernanda ainda revestida por pele. Extinta entre linho e rendas, ausente. Quase tão ausente de-corpo-presente como João, incapaz de atender às vozes dos vivos, de se abalar ou comover, tão remoto que quase ignorado. Não brande um dedo sequer, uma pestana, não brande uma lágrima. Segue maquinalmente o cortejo fúnebre rente à urna, inexpressivo, mais gélido que ela. Vê-a descer à terra castanho-negra, oscilar ligeiramente, embater nas paredes profundas, o barulho das correntes desliza nas pegas igualmente metálicas, o cheiro molhado da cova, ele oscila também, vacila, bóia, um pouco abaixo de tudo aquilo... A primeira bordoada de terra ecoa no tampo da urna, ressoa no estômago de João, detona-lhe o cérebro. Em piano risoluto, as pancadas de terra sucedem-se, ecoam no tempo e no espaço, depois em piano dolce numa orquestração desalentada. A terra na cova atinge o topo, já não há cova, não há Fernanda, como não há João. As pessoas afastam-se lentamente, dispersam pelos arruamentos silenciosos esculpidos entre mármore, granitos e flores. Deixa-se ficar, deixam-no ficar, assistindo à recomposição desagastada da campa, cheira ainda a terra molhada, saibro, gerânios e gerbérias, ao perfume das senhoras, ao suor do coveiro, cera ardida e água benta.
O cemitério entrega-se à noite que se derrama lentamente sobre um cenário surreal de cruzes e sombras deixando João a sós com os seus sentimentos, e o vírus. Com o vírus de sentir, os sentimentos infectados, inflamados, a infecção ressentida, João sentado entre jazigos e mortalhas, a dor e a raiva.
Sentado, só, na campa da mulher, inevitável e irremediavelmente só. Uma chuva pequenina e tenra traz consigo um sudário de nevoeiro, as gotitas depositam-se-lhe nos cabelos negros, nos ombros escorridos, nos joelhos dobrados, na alma vergada, consegue enfim chorar. Vai ali passar a noite, ali amanhecer de luto. Endireitar-se-á enxuto tingido de água clara. Carregará Fernanda em si, captar-lhe-á a alma ao alvorecer, naquele espaço interpolado entre o ser e o fenecer, em que a alma se evapora pura desde o coração do pó, és-pó-e-ao-pó-hás-de-tornar, até ao infinito sempiterno dos céus. Unos, coesos. Jamais voltará a este local, que dela nada reterá.

Repudiará qualquer contacto físico, abruptamente repelirá os corpos que se lhe avizinhem, até o da mãe, o da irmã de sempre, nunca, todos, sua pele amaldiçoada, não os condenará como condenara o de Fernanda.
Estigmatizado. Anatematizado. SÓ.

mariabulac, 2002

2003/08/14

eu gosto é do Verão...
vagas de calor e insectos em eclosão

as moscas, as melgas e os mosquitos
aranhas e aranhiços, gafanhotos
escaravelhos, baratas, todos os animalejos de muitas patas
os incêndios
a poeira inultrapassável, a electricidade estática
o cancro de pele e os escaldões, as insolações, a desidratação
afogamentos, congestões, E o ar condicionado
movimentos condicionados, os aromas
suor, sebo, bedum, cada Um 1 frasquinho-surpresa
agressividade, ansiedade, impaciência aceradas...

... eu gosto é do Outono!

2003/08/05

maledicências consensuais

...pois maldigamos:
o Governo laranja choca. o rosa-choque da Oposição instituída. e os Políticos em geral, claro.
as convulsões internas de um partido repartido entre o Rosa-salmonado e o fúcsia.
(os Verdes e os vermelhos longe desta saga, demasiado impopular maldizê-los)
os sacos azuis, afinal verde-Atlântico. as caixas negras sempre vermelho-Sangue.
e o Azul na pessoa de um dirigente desportivo que de desportivismo e fair-play tem muito pouco.
a exorbitância dos ordenados de futebolistas e os clubes que imoralmente mantêm salários em Atraso e não-pagam à segurança social.
as questiúnculas entre um autarca que odeia a autarquia e um megalómano do outro lado do Rio.
os espectáculos de pirotecnia, os incendiários, os bailes dos Bombeiros, os voluntários, os coagidos, e os outros.
as matas por mondar, a terra a quem a quer trabalhar, o ministro da administração interna, a falta de meios de combate aos incêndios. e já agora a falta de princípios e o excesso de Fins.
a provinciana administração da casa da música e os Desafinanços do menino burmester mimado.
...que as polémicas em torno do CCB são já história(s).
o fantasma do ministro da Cultura.
a Gerente das finanças, a ministra do P.E.C., e a fuga ao fisco.
a política de Desinvestimento e o incentivo bancário ao endividamento familiar.
o rendimento mínimo garantido. as burlas ao Fundo nacional de pensões.
a falta de Segurança nas cidades. o autoritarismo violento das forças de segurança.
a lentidão do Sistema judicial, as prisões preventivas, todas iguais, todas diferentes.
a (in?)constitucionalidade das escutas telefónicas. os tarados dos Pedófilos.
a prostituição infanto-juvenil, as Mães de bragança, as prostitutas brasileiras. e os dentistas.
a ordem dos médicos, A de advogados, a ordem, a anarquia e o progresso.
o uso indiscriminado dos telemóveis e da internet. o Uso discriminatório da comunicação social.
a informação, a desinformação, a anti-informação, a contra-informação, e a guerra de Audiências.
a Guerra Nafto - Santa. a prepotência do fast-food e da irracionalidade de um chauvinismo vingativo.

Sinto-me mansa hoje, não me apetece maldizer. (maldita mansidão!) O Sol nasce, ilumina, aquece e põe-se como é suposto acontecer; as plantinhas felizes dedicam-se à fotossíntese como se apregoa nos manuais de Bio-Química e de Botânica; o vento venta ao sabor das baixas pressões e dos anti-ciclones; o mar molha, salga, enrola na areia, abriga seres marinhos e afoga incautos. Tudo está no seu lugar cumprindo as suas incontestáveis obrigações.
Nem sei o que seja mais deprimente,
se CADA UM FAZER O QUE PODE,
se fazermos (APENAS) aquilo que se espera de nós!

mariabulac, julho2003

2003/07/27

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TILT
afirmaram e garantiram que o mundo ia-se acabar, por causa disso
já não sei que mais posso ser, um dia rei, outro dia sem comer
we are the champions, we are the champions
não, não voltarei a ser fiel
e nem o próprio charuto vale um charuto
sei de uma camponesa
que fará ela fumando, estará a meditar
afinal sabe a chicla de mentol
rapte-me

mariabulac, julho2003

2003/07/23

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...em terras de Al Garve, Cyber Kiosk de Al-bu!-Hera...
Até breve!

2003/07/18

ZEROs e UMs a preto e branco

Boa viagem e boa sorte. Até breve. Hasta la vista. Adeus.
Diante do monitor sente as lágrimas efervescerem-se. Acha-o a cada mail mais distante, mais alheado, mais outro. Que se passa?
Lembra todas as certezas de perpetuidade. Olha em volta - Camadas de um pó paleolítico, livros e CD´s espalhados pela casa, as cadeiras, o sofá desabitado. O sofá onde ele a convencera a mudar-se para cá. Com beijos e falinhas mansas, promessas e projectos.
Pelos beijos, pelas falinhas mansas, pelas promessas e pelos projectos. Por ele. Amara-o inteiramente, toda ela o amara completo. Fizera-a dedicar-lhe todo o seu querer, seus sentires e instintos.
Relê o último mail. Seus últimos ensaios, testes, as conclusões e suspeitas, a confirmação da hipotética teoria, o Professor Doutor Isto, a Professora Doutora Aquilo, o empolgamento que lhe é alheio, a sua total entrega a uma tese... Então e nós?
Uma teia de aranha electrizada instala-se-lhe na coluna vertebral, fria e brilhante, orvalho eléctrico de ciúme e inveja, nostalgia, solidão. Se ao menos o pudesse ter consigo uma noite, umas horas, para lhe recordar o quanto-como-sempre se amaram e completaram...
Você tem mail!
Estás aí, desse outro lado, aí, aqui, agora! - Um desejo seco e definitivo de se lhe impor, impor sua presença, o seu espírito, de se lhe mostrar e demonstrar, de o lembrar daquele NÓS que agora lhe tolhe o correr e o sorrir, o tempo a escorrer. Sem interesse. Sem interesses.
Concentra toda a sua vontade, o desejo e a saudade, quer fazê-lo senti-la presente, não por letras, palavras, símbolos e sinais, quer que a sinta em corpo e alma, a sua presença, junto, colada, como antes...
Fecha olhos definitivos, lembra-o, sonha-o, sente-o, cheira-o. (Conhece-lhe o gosto, os gostos, os desgostos. Anseios e devaneios.) É como estar lá sem estar. Sabê-lo sem o poder saborear... Concentra-se, crispa-se. Posição de lótus, energia vital, vibração. Vontade, um pico de Querer.
A cadeira tomba, abate-se sobre a mesinha do telefone onde uma vela tardia ardia. A vela tomba, derrama-se sobre a manta étnica. Inflama-se, incendeia-se, miríades de fogachos multicores nas cores Quentes do arco-íris, labaredas. No seu corpo miríades de fogachos nas cores frias do arco-íris. O cérebro crepita em azuis, verdes, roxos, lilases. Descargas eléctricas em cada neurónio, flashs e explosões de mil sóis dos axónios aos dendritos, girândolas corticais, fogos fátuos medulares, uma aurora boreal em cada fenda sináptica...

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ZEROs e UMs a preto e branco. Dezenas de dezenas, centenas e centenas, milhares, milhões, uma infinidade de 0 e 1 sem par. 2 nem em sonhos ou memórias. SÓ, no compasso binário da informática.
Ela-Vírus. Percorre veloz o espaço inexistente entre cibernautas activos, passa todas as paisagens em pichéis e agulhadas coloridas, da floresta amazónica ao deserto do Sahara, da Torre Eiffel à de Babel, animais de todos os continentes sem escamas, pêlo ou penas, impulsos inorgânicos, da mais medonha tarântula ao tubarão mais ardiloso, todo o fascínio da botânica, da erva mais daninha à sequóia em salpicos eléctricos, todo o conhecimento compilado em séculos de informação contraditória ao alcance de um bite. Ela-Tudo.
Norton anti-vírus detectou um vírus neste atach. Delete? - OK
Ela-Nada. Persistirá indelével e eterna cada vez que alguém se-ligue. Ela-Sempre.
Norton anti-vírus detectou um vírus neste atach. Delete? - OK
O pequeno apartamento deflagrara em chamas incontroláveis, tudo perfeitamente incinerado, da cama ao computador. Ela-Nunca.
Norton anti-vírus detectou um vírus neste atach. Delete? - OK
Onde estás? Que aconteceu? Onde estás agora?
Norton anti-vírus detectou um vírus neste atach. Delete? - NO
No! No! e No!
NÃÃÃO!!!

mariabulac 2002

2003/07/17

ARTE CONTEMPORÂNEA – ABORDAGENS E PERSPECTIVAS
Texto a pretexto do curso ANTROPOLOGIA E ARTE – ÁREAS DE CONTACTO
(Fundação de Serralves)

No início do século XX os pontos de contacto entre antropologia e arte convergem para o "objecto" "homem primitivo". Percursos paralelos, raros encontros, ciência e arte em fragmentação disciplinar. O caminho da antropologia opondo natureza a cultura, expurgando o primitivo da civilização; O da arte representando o homem primitivo, criando idealidades equivocadas como a do "bom selvagem".
A arte aventura-se na superação crítica das concepções europeias, na procura de novas formas estéticas, de formas universais de pensar o Homem. O homem como parte da natureza operando ao mesmo tempo o pensamento selvagem e domesticado impõe um rompimento com as velhas fronteiras disciplinares, promove a conexão entre arte e ciências, uma construção convergente do Saber.
A sociedade ocidental atravessa momentos de rupturas profundas no modo como constrói saberes e como com eles se relaciona. Rupturas que permitem pensar a desordem de uma ordem construída sob os auspícios de um pensamento científico, de uma construção de Verdade que obedece ao modelo teológico cristão. Em rota de colisão o talento está em questionar também “a verdade”, fé e ciência legitimam-se ancestral e mutuamente apesar de se pretenderem opostas. A ciência, tal como a fé cristã, procurando maquilhar o "imundo" para presumir o "mundo", a ordenação do acaso, acaso a única ordem possível.
A manifestação artística desfrui estas rupturas. "Para a pós-modernidade não haverá mais essa distinção entre ambos os procedimentos. A arte não mais combate a ciência ou a tecnologia, como acontecia nos tempos modernos" (Teixeira Coelho).

Às portas do terceiro milénio a velocidade acelerada e crescente da técnica impõe o seu ritmo aos corpos, às relações sociais, a toda a produção humana. A criação pode ser investida de singular força de transformação, a comunicação instantânea, os meios de comunicação de massas, o endeusamento da subjectividade e sua dimensão criativa, o tempo de ressonância da arte através do pensamento, a necessidade de interacção com a informação, a pós-vida da obra de arte, criação e autoria, a violência do anonimato na Internet, a simplificação do texto na rede. Qual o lugar da arte na cultura globalizada contemporânea?
Diante do caos, a arte a prática por excelência da produção do sentido. Uma força contraposta ao esvaziamento do Sentido provocado pela hegemonia dos mercados. Os circuitos tecno-industriais e tecno-comunicacionais mediadores universais da produção de subjectividades. Reiterado assim o conceito pop-erudito de televisibilidade que proporciona a sequência académica de “minutos de fama para todos” profetizados por Andy Warhol.
Os "estudos culturais" trabalham preferencialmente uma definição extrínseca de arte, convencional ou institucional, no tipo de definição pragmática que seria esperado da Sociologia ou da Antropologia, arte é aquilo que uma comunidade legitimada para tal define como sendo Arte. A descrição das funções sócio-simbólicas, a particularização de estruturas específicas, materiais e técnicas por um lado, intersubjectividades por outro, uma modalidade de interacção social articulada através do objecto de arte. O objecto de arte dessublimado, extirpado do seu carácter de objecto-coisa em (con)sequência de corporalizações / rebaixamentos / reincorporações do caos e do acaso, o livre arbítrio necessário ao acontecimento artístico. A dialéctica do sublime na medida que o acontecer estético anti ou des-construtivo dissolve o sublime promovendo sua encarnação – O objecto dissolve-se no fluxo pulsional de uma intermitente subjectividade colectiva.
"A massa distraída (...) faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absorve-a em seu fluxo." (Walter Benjamin)

mariabulac 2003
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NOTAS sobre o texto "Antropologia e Arte - Áreas de Contacto":
- Injustiça e Relatividade
Não sou “do meio”. Grande tentação ver Uma Injustiça! no imperativo convite de me comprometer nesta área. Ilegítima a avaliação equidistante a situações próximas “ao meio”. (Mesmo declinando que no meio esteja a virtude.) A virtude está na imensa, profícua, incorruptível, omnisciente, inabalável e axiomática re-la-ti-vi-da-de. (e = m.c²)
Atrevo-me pois a elaborar um trabalho submisso ao tema proposto pela ligeireza e superficialidade que me permitirei, outsider que sou, dispensando-me de rigor histórico e aprofundamento científico. Apenas um trabalho sobre – a – ante – após – até - Antropologia - de – desde – durante – em – para - Arte à sombra de um amadorismo de liberdade (in)formal, informalidade histórica, anarquia conceptual. (Que me perdoem os experts, se for caso disso.)
- Áreas de Contacto
área superfície espaço campo extensão capacidade arena
contacto influência intervenção interposição entremetimento
- Antropologia e Arte
Ánthropos – Homem (do grego)
Lógos – Tratado (também do grego)
Antropologia – Ciência que estuda o Homem e as suas obras
Arte – (ta-tchããããan!) não sei
- Referências
O primitivo na antropologia e na arte: por um saber convergente (Dorothea Voegeli Passetti)
A arte e a História da Arte: caminhos e descaminhos na pós-modernidade (Viegas Fernandes da Costa)
Nosso século XXI – Notas sobre arte, técnica e poderes (Janice Caiafa)
A partir da nostalgia em Sarlo: aren(g)as, vocabulários, estratégias (Italo Moriconi )

mariabulac 2003

2003/07/16

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Graffitei
_________________________________ amo-te
no pára-brisas
____________________________________ curiosidade
_______________________________________ suspeita
__________________________________________ mentira?
Amo-te!
e quero-te e preciso-te
_________________________________ amas?
amas-me?

mariabulac 2002

2003/07/15

CONTO

Precisava rever AQUELA pintura antes que fosse tarde demais. Que a vendessem. Custava-lhe aceitar que se vendesse algo parido tão apaixonadamente, algo que acreditava tão pessoal e intransmissível, e subitamente maldizia todo o autor que capaz de converter sensações em patacos. Prostituição. Vendedores de sentimentos, impressões, certezas, emoções... Logo depois pára. Pára, e olha-se - Incapaz de colorir seus sentimentos, impressões, certezas e emoções, incapaz de os converter em traços, linhas curvas rectilíneas, luz, sombras, cor, penumbras... Sem o dom de consumar suas próprias sensações, exterior a si, privada de materializações alheias. Mortificação.
Apenas símbolos, as letras com que escreve e se descreve. Estereótipos, as palavras. Regras, convenções, estigmas. Só poderia ser-se fiel pintando, desenhando, dando liberdade ao lápis sobre o papel. (Não foi abençoada com esse dom.) Tudo o que sabe em si e quereria extrair sob a forma de formas, cores e luz se recusa a dançar no seu andamento à superfície de uma folha imaculada. O barulho das luzes, a cor dos sons, o sentir das coisas, a dor dos sentidos, escondem-se irremediavelmente sob um manto disforme, informe, tosco, rabiscos e borrões. Gasta-se e desgasta-se entre pincéis, tintas, cores, desconsola-se, decepciona-se, amaldiçoa-se, rasga, destrói, acabrunha-se, deprime-se. Chora. Senta-se diante do monitor, agita-se, dedos irritados, irisados, tremelicam frenéticos, pairam vibrantes acima das teclas, começa a purga. Martela, lambe, pica, acaricia os caracteres incaracterísticos, bate e beija cada letra pelo projecto de prazer que antevê. Sorri enfim. Lê-se em voz alta, esgrime os sons, as ideias, visões. Em cada texto vê um quadro, painel vivo, as formas, as cores, luz e sombra, profundidade, perspectiva, até aroma. Apaziguada quer visitar seu quadro dilecto. (Visitar, o termo exacto, como se visita um ente querido, um familiar, um amigo íntimo...) E poderia agora comprá-lo sem se sentir cúmplice de blasfémia, profanação, ou prostituição. Altruísmo.
Uma ansiedade infantil. Estranha, bacoca, alvar. Ridícula. Mas ninguém poderá ler-lhe a combustão de pele, o pestanejar ardente, os desejos da alma. Os dois corpos amando-se. A anca dela em luzimentos dourados, o ventre dele suado afundado no dela. Movimento. Vibração, movimentos.
Humberto (sem título) 2002

O silêncio oculta-a sob grossas demãos de sons imprecisos, conversas e passos e risos que lhe são indiferentes, longínquos. (Um breve roçagar mudo, uma respiração ausente, acompanha-a, queda, na observação.) Ana e o seu retracto. Um auto-retrato pintado por outrem naquela fusão de cinza e bronze, noite e água. Misteriosa, maldita, o seu espírito. Chove nos seus olhos, seu coração é de vento, a alma o Inverno. Inferno! Aterrador reconhecer-se assim no traço de um desconhecido, terrífico sentir-se exposta, excessivo olhar-se bela... Perplexidade. Inquietação, sobressalto, afronta, estupro... Prazer!
Ele observa-a de perfil, sabe que ainda não colheu dela a labareda interior, apenas uma nobreza superficial, quer sonhá-la perversa. O perfil quase desagradável de tão agreste, a expressão angelical. Olhos de um negro assombroso, aproxima-se, a voz atenta, íntima, sobressalto furtivo, prazer latente. Conversa de circunstância. (Ela suspensa em si própria, ele pendente dela.) Silêncio gratificante, Este quadro é seu. Escusadas explicações. Tão claro, tudo, agora...
Quadro colocado, amanhecia. A iluminação da pintura, uma luz mole, amorável, num alçapão posterior à tela, atravessa-a em sentido ascendente, directa ao observador, escorrendo depois pelo lado de fora dos tintos, onde o choque entre os corpúsculos de luz e os fragmentos de cor provoca requebros lascivos. Humberto extingue a fonte de luz, a Ana do quadro detém-se, cativa da penumbra. Um vento alfinete penetra o quarto esvoaçando as cortinas azul noite, ocre, caramelo. Iluminadas apenas pelo nascer do sol, a pintura, a cortina, ela, apequenada aos pés da cama, devota. Humberto aproxima-se demoradamente, (um desejo violento de reproduzir, em preto e branco, a combustão do arco-íris que lhe decifra no olhar,) abraçam-se, beijam-se. Lentos, tardios, beatíficos, morderam-se, beliscaram-se. Riram. O cheiro dele, a tintas e androgénios, turgesciam-na, o aroma a admiração e desejo que dela se desprendia enlouquecendo-o. Abraçaram, beijaram, morderam, beliscaram, riram mais, cheiraram. Despiram. Tactearam. Sentiram. Desejaram. Completaram-se, nasceram-se, consumaram-se.
A pintura ganhou relevo, textura, e odor - Ela, sim, mas com olhos de água e corpo de terra, barro original moldado pelas mãos do artista. Do Sábio.

Estranheza. Perturbação. Incredulidade. Humberto ou as suas tintas, sua capacidade criadora. Humberto e as suas tintas, sua inspiração. Humberto, sensibilidade. Humberto. Ele e os seus olhos macios, mãos doces, a inteligência das feições quase anónimas, a ternura da pele. Humberto ou a vã glória de criar. Completamente apaixonada não consegue sentir para lá dele. Humberto à superfície da sua pele, entranhando-se-lhe as entranhas, ocupando-lhe as pupilas, o cristalino, os humores.
Suas pinturas evoluem irreversivelmente, ela reconhece-se em cada uma delas, identifica a situação, revive desejo e seu saciar, o prazer renovado a cada tacto. Nascem de horas de paixão, horas em que se deixa possuir por arco-íris pulsantes jorrando de corpos amantes. Arco-íris que lhes circulam nas veias, e ele anima-se em estranha inspiração, prende-se à cor, seus pincéis bebem os tintos de Ana, ele embebe as telas com sucos do amor roubado dela, nascido por ele, sucos que brotam da união dos seus corpos de paixão. Fazem Amor, cada orgasmo atinge a tela, suave e delicado repleto de ternura, doce e denso, violento e agreste, avassalador, demolidor, forte e intenso, continuadamente incompleto.
Humberto (sem título) 2002

Ana entra em casa iminente. A mesa posta na sala, essência de cannabis no queimador, velas acesas à tona de água, música étnica. O aroma das ervas, colorido de três pimentos, o sucesso de todos os cogumelos, gengibre e endívias. Vinho tinto. Deleite.
Lençóis encapelados. Derramada adormecendo no embalo da satisfação libidinosa. Humberto aguerridamente suspenso das tintas, da cor, das formas. Insatisfação. Quer mais e melhor, falta realismo, paixão... Um bisturi por pincel e desliza, ajoelha, acaricia demoradamente a pele quase translúcida junto ao umbigo dela, o umbigo que faz de nós apenas mamíferos, segura a lâmina com demasiada força e fere-se, desenha com ela delicada chuva... A janela escancarada deixava já jorrar o vento, começa agora a chover. Grossas gotas felizes beijam sua pele, fundem-se-lhe, engrossam o sangue que se escapa dos pequenos golpes de bisturi. Eflúvios de sangue e chuva, ainda o sangue dele, mais escuro, torturado, insatisfeito. O lençol molhado, manchado, chuva, sangue, e chuva e sangues misturados. Vermelho, luz, cinza e púrpura. Escasso! Afunda a lâmina dorida no ventre dela, um rasgo de vinte centímetros, quer segurar-lhe as entranhas nas mãos, beijá-las, possuí-las...
Despertada num sobressalto senta-se num salto, ele fere-se junto à janela junto à tela acabada de pintar. Volta-se para ela, olhos de génio, sorriso de louco, Vem ver!, as calças descaídas, meio soltas, o início do fim das costas, o tronco nu salpicado de noite, de tintas, de chuva, (chovia alvoroçadamente, o beiral da janela fluindo, a cortina roubada pelo vento gotejando,) a lâmina do bisturi esquecida ainda pertença da carne, pingas do sangue dele descarregadas no soalho respingando volúpia... No cavalete, vermelho, luz, cinza e púrpura, um rasgo de vinte centímetros na tela. Outra tela justaposta, recuada, mãos de bronze, castanhos, vários vermelhos, vísceras. Ela aproxima-se mortificada, maravilhada, ele liberta-se da lâmina, prende-lhe os braços, consomem-se um no outro, um ao outro, a mão de Humberto sangra ainda, os lençóis como no sonho e na tela, vermelho, luz, cinza e púrpura. Sangue, sémen, suor e saliva.
A luminosidade de um sol de Inverno esforça-se por atravessar a chuva, chuva que não pára de se despenhar em obscuros aguaceiros. Impossível amanhecer. Cinge-se a Humberto, aperta-se de encontro a ele desejosa de se fundir nele, ser dele, ser ele, ele não reage, num sono profundo de belo adormecido, ela a bruxa e a maçã, a maçã e a serpente, sente-se dormente, solvida, chove na tela, as cores escorrem para o chão. Adormece também, esgotada.
A chuva levou o corpo da tela deixando apenas mãos frias de bronze. Humberto Sem Título 2002 partiu. Deixou tudo de seu, (que foi trazendo devagarinho,) para que ela não perceba que não volta. Ela sabe que não volta.
(continua)

2003/07/14

CONTO, continuação (over and out)

Viu encastrado na parede negra um ventre flóreo. Vísceras, sangue pulsante, cordões azul-arroxeados, muco ardente, seiva encarniçada – feijãozinho de vida involuntário, girino humano. Sente-se abençoada. Escolhida. A eleita, com o espírito do amor no ventre. Acredita Humberto ferramenta divina.
Pinta-me!
Pintou-a com óleos e ceras, goma, sal marinho e café. Pó de caril, pimentão. Malaguetas entre-coxas. Canela. Açafrão e azeite nos cabelos. Chocolate. Coco e gemas para os lábios. Erva cidreira. (Um púcaro com açúcar, fogo lento, caramelo.) Barriga e seios a caramelo, castanho-dourado borbulhante, efervescente, fumegante, leite e mel para acalmar a dor, sangue. Sementes de sésamo, de trigo, e cravinho, almofariz. Sexo, vinho rubro. Uma faca eminente. Mais sangue. No útero, saliva e pão, Pão da Vida. Salvação.
Ana estremece, calafrio. Um monstro negro de pele avermelhada lustrosa, voraz, nos olhos dele. Cheiro a especiarias, vinagre, e sangue. Humberto aproxima-se demasiado, vem beijá-la, e o monstro com ele, sabor a final, eternidade. Abraço desmedido, reciproco, sem limite de tempo ou intensidade. A mão dela, a faca, as costas dele.
Olhos dele, doçura extrema, negros, surpresos, porquê?, esvaindo-se, esgotados, adeus!, o chão junto ao cavalete.
Ela reencontrada. Recolhe-se a ele inexpressiva e fria. Deita-se, o sangue dele por colchão, sua paixão por cobertor. Dores crudelíssimas no ventre, nas costas dele. Pela varanda aberta uma chuva depressiva e mole, água feita neve entre as nuvens e os solos. Lenta e mansa. Ana choverá sem-fim.
Na tela uma mulher grávida, alimento da natureza, nua, pintada a pão, vinho e especiarias.
Humberto (desmancho) 2002

mariabulac 2002
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. . .e o futuro também não existe. . .
(obviamente!)
Conseguimo-lo nós com 3 dedos de esforço: Ctrl+Alt + Delete

mariabulac 2003

2003/07/11

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Num grupo de ovelhas negras a ovelha branca é a OvelhaNegra do grupo.

Manuel (1964 - 4691)

2003/07/08

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O Presente não existe
Existe uma sucessão ininterrupta de momentos futuros convertidos em Passado
e o Passado avança inexoravelmente, uma espécie de desfragmentador da unidade E(u):

A UNIDADE E(u): FOI DESFRAGMENTADA COM SUCESSO

(Fui!) mariabulac 2003

2003/07/05

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Quem espera que um pedido seja formalmente enunciado vende o favor pelo preço mais caro.

Rita Salazar (1939 - 1994)

2003/07/04

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nasci a leste
leste, nascente, levante, Lorosai
cresci Lusitana a ocidente, poente, ocaso
vivo a norte, Porto, ancoradouro, refúgio, abrigo
sonho histórias, estórias, Histórias
escrevo-as para me livrar das Fantasias
dos Pesadelos, das Insónias, do Adormecimento
por querer, por prazer, porque Sim

mariabulac 2002

2003/07/03

Normal

não sou normal # areia sem sal
Inverno sem caldo # incêndio sem rescaldo
fogo sem calor # sexo sem amor
objecto sem desejo # boca sem beijo
íntimo riso # excesso de juízo
morte de virgem # chaminé sem fuligem
escadas sem chão # poeta sem inspiração
tramar a rima # fornicar com a prima
mulher sem sexo # lógica sem nexo
verdade que cala # mãos sem fala
pé de atleta # costurar a meta
cancro sem dor # merda sem fedor
sem cão farejar # praia sem mar
rio sem nascente # foz sem corrente
peixe de arribação # macho sem tesão
sensual e ausente # alvorecer poente
luar sem prata # telhado sem gata
cidade sem casas # semente sem asas
alfobre sem terra # mártires sem guerra
ira com paixão # cereja sem morcão
árvore sem madeira # desfazer a cadeira
trono sem bobo # omelete sem ovo
malagueta doce # tuberculose sem tosse
lêndea sem piolho # velha sem ferrolho
chave sem fechadura # sino sem altura
orquestra sem pauta # tiranossauro astronauta
cometa ardente # lua cadente
sol de Fevereiro # altar traiçoeiro
funeral festivo # caçador furtivo
predador caçado # Alentejo sem gado
dilúvio em Agosto # vinho sem mosto
vindimar o tomate # eleição sem Camarate
monarquia sem corte # estrela sem sorte
russa a roleta # milionário forreta
diamante sem brilho # enterrar o filho
criança sem manha # teia sem aranha
cartola sem coelho # atravessar o velho
mordedura sem dente # adorar a serpente
amor carpido # mãe sem marido
fetiche inocente # piela consciente
abstémio anónimo # palhaço sem ânimo
zorro sem capa # presa que escapa
pomba de rapina # génio sem lamparina
cinderela sem fada # nascer de pancada
crime ou castigo # mamífero sem umbigo
allien terráqueo # charada sem batráquio
cuspir o sapo # assoar o guardanapo
merenda sem cabaz # férias sem paz
chuva enxuta # amar a puta
mau génio celeste # altruísmo agreste
violência sem mal # W.C. sem jornal
mal-estar geral # sou comum afinal

mariabulac 2002