Conto: Menção Honrosa – Rotary Club, 2002
uma Cotovia prematura empurrada pelo irmão Cuco
Frutos vermelho-estridente aferram-se ao caule da planta tentando resistir incólumes ao calor escandaloso dos dias de Verão. Num universo de terra seca, clara como palha seca, erva seca, de um bege espesso e poeirento, os tomateiros regozijam-se com o regadio solícito que lhes anima os frutos. Alguns, de tão sôfregos e maduros, têm a delicada pele rachada, túrgidos, deixando entrever a polpa carnuda.
A apanha do tomate. Dezenas de tarefeiros contratados a eito, à hora, ao dia, dia após dia. Ganga sovada e sapatilhas meio apodrecidas, Pedro junta-se-lhes. Tomate após tomate. A fragilidade dos frutos alonga-lhe os dedos delgados, recolhe-os um a um em ambas as mãos. Não conversa, não canta com os colegas, aparentemente nem os ouve, concentrado na mecânica dos gestos, um rendimento flagrantemente superior ao dos outros. Recebe o mesmo que eles no final de cada jorna numa letargia também superior à de qualquer deles. Ali mesmo arregaça a t-shirt puída para guardar a fortuna na bolsa que traz à cintura, deixando a moça que lhe paga a pensar que naquela barriga se poderia brincar ao jogo do galo, de tão desenhados e firmes os músculos, Até amanhã! Ele não lhe responde, fitando-a, surpreso, pela primeira vez. Os olhos dela seguem-no alguns passos. Ele não fala com ninguém, Menina, Esse só abre a boca para comer um tomate de vez em quando, Nem se junta a nós para almoçar, Também não traz merenda... Na agitação dos comentários ela ouve que Ele não é um dos nossos.
Pedro aprecia a visão da última camioneta de caixa aberta carregada de tomates maduros que se afasta pela estrada cinzenta. Uma mancha vermelho vivo lustroso diminuindo de tamanho e intensidade sob ondas de poeira e fumos, deixando escapar um por outro fruto que, resvalando da pilha trepidante, se espapaça no asfalto, se esfuma na canícula do fim de tarde. É hora de caminhar em sentido oposto, sentindo aposto, uma estrada esquecida no arrastar agradado dos pés. Uma imensidão de girassóis maduros até perder de vista. Um carreiro estreito, Propriedade Privada, e mais ao fundo um poço quase esgotado. Um chaparro desgarrado, cansado. Adora chaparros. Os seus pertences à guarda deste, lá no alto, suspensos. Recupera-os trepando com agilidade simiesca para se refrescar antes que o poço seque completamente. Aqui pernoitará tranquilo, para, assim que o Sol-do-dia-seguinte se erguer, regressar à apanha do tomate. Aproveita todas as oportunidades de trabalho que se lhe deparem pelo caminho, a isso se obriga desde que deixara a sua aldeia lá muito a Norte.
Referências femininas, referências acromáticas, referências circulares, uma cadela perseguindo a própria cauda, a avó, a mãe e a tia, as irmãs, a prima, a gata, as oliveiras e as amendoeiras, as vinhas, um mundo no feminino. Mais as galinhas e as coelhas para criação. Machos, só um de cada espécie. E Pedro condenado a agradar exageradamente ao sexo feminino, seja pelo olhar ilusoriamente atrevido, quase provocador de tão lavado, pela expressão meio desprotegida de cria carente, ou pelo corpo escorreito e enérgico. Cedo se começara a sentir assediado pelas fêmeas em idade de procriar. (Se no eclodir hormonal a situação até que lhe agradara, sentira-se depois perseguido, menosprezado, quase injuriado na sua condição de racional.) Crescera irritado com a denguice que se lhe enlambuzava em redor. Não fora a filha do médico e teria mesmo temido pela consistência da sua virilidade.
A garota, meio bravia, arraposada e geniosa, numa indisciplina que simultaneamente ofendia e apiedava, estranhamente engraçara com Pedro. Seguia-o nos seus passeios solitários pelos montes, à beira rio para o ver pescar, qual cachorro vadio em busca de dono, e ele adoptara-a. Ao pôr-do-sol devolvia-a aos pais, às cavalitas. Um casal estranho, o velho médico, permissivo e distraído, e a mulher, uma jovem amorfa quase inerte.
O corpito esguio assexuado de Inês começara anunciando o milagre da metamorfose. Era a cintura que se demarcava dos ossos da bacia, as coxas que se alongavam, os mamilos ganhando volume sob as camisolas vadias... O primeiro sintoma que chocara Pedro fora, ao segurá-la pelos joelhos, tendo-a sentada no cangote, a suavidade das formas onde antes encontrara ossos, Estás a ficar demasiado crescida para este meio de transporte, E ela rira com gosto estreitando-lhe o pescoço entre as coxas. Vapores lúbricos.
Desde esse dia perturbador Pedro começara a evitar contacto físico com a miúda, e, estranhamente, mais ela lhe procurava tocar, mexer, rondando-o e roçando-se nele sem cerimónia. A sua reacção nessas alturas – gotículas de um suor balbuciante nas abas do nariz, oscilações de voz, brancos na corrente de raciocínio, – deleitavam-na sobremaneira. Sem que ele se apercebesse, a perspicácia, inicialmente irreflexa, de Inês, fê-la despertar para um interesse físico no despertar da puberdade. Gaguejos e tartamudeios, no entanto, nunca encontraram nela eco explícito.
Afagado pela aragem morna dos fins de tarde, embalado pelo recolher da passarada, aconchega-se ao tronco do chaparro. O céu, ao longe e sobre as cabeças desanimadas dos girassóis, reflecte os fogos carnais do Sol em fremência. Sabe que foge de Inês, toda esta peregrinação para que se consuma ausentando-se dela. Decidira-o reconhecendo-se incapaz de resistir, enroscara-se ela nele, junto ao rio, Para lhe impedir a pesca, Para que lhe prestasse atenção, Para que a ouvisse. Repelira-a bruscamente. No dia seguinte deixara a aldeia. Suspeita ter visto nela pela primeira vez um olhar de mulher, entre a sensualidade, ao enroscar-se-lhe, e o despeito, sendo rejeitada. Esta dúvida maltrata-o, tortura-o, acompanha-o desde o primeiro passo rumo a Sul, alternando-se indigno e mártir. Sente Inês com uma ternura imensa, a sua puerícia e rebeldia, forças da natureza. Saudades. Mais do que da mãe ou das irmãs, do mimo doméstico, sente saudades de Inês. Da sua alegria invicta, da energia contagiante. Estreita-se à casca do chaparro até ao doer das vértebras, rodeia os próprios joelhos flectidos com o tesão com que a abraçaria a ela. Se ela fosse mais velha.
Se fosse mais velha tê-lo-ia seguido ela. Acordara sobressaltada na antemanhã em que Pedro partira, numa agitação viscosa, um sufoco acelerado, errante, sem assunto. Pequenas descargas eléctricas, saltitantes, desinquietavam-lhe as articulações, o corpo repelido pelo colchão, uma angústia tenaz na garganta, assomou à janela a tempo de o ver partir no contra-luz do alvorecer. Queria ter podido dizer-lhe que, fisiologicamente, era já uma mulher, Que o provocara intencionalmente, Que o seu corpo se esfomeava do dele, Que o desejava tanto como ele a ela... Não percebera a tempo de onde lhe brotara a sensação de bem-estar junto dele, o prazer de pele quando se tocavam. Desgastara-se no esforço de se ignorar, confusa nas próprias emoções, escondera-as de ambos, imprecisa e desafiadora. Assumia agora o sentimento e a gula. Ele partira perturbado, revoltado consigo próprio, culpando-se e acusando-se de pecados inexistentes, imoral e vicioso, por sua culpa. Mea culpa. (Enorme a tentação de chorar.) Fixou-se na vontade de quem se habituou a conseguir o que quer – Fá-lo-ia voltar!
Acordou dorido, as costas ainda apoiadas na árvore, ainda abraçado aos joelhos flectidos, suado e molhado. O seu primeiro pensamento para Inês. Cresceria ela a tempo? Cresceria para ele? Aliviado pela distância, um suspiro de regozijo na certeza que, graças à distância, (e apenas por ela,) não protagonizaria nenhuma indignidade. Atormenta-se com a sua meninice, os divertimentos infantis, a falta de malícia no olhar, maldiz-se pelos próprios pensamentos, seus desejos que recalca, que quereria encobrir até de si mesmo. Resta-lhe esgotar-se de trabalho. Ergue-se, lava-se, regressa à apanha do tomate. Recebe-o a moça que lhe pagara na véspera, o sorriso íntimo de velha amizade. Estranha-a demasiado produzida, detém o olhar no penteado cuidado, surpreende-a não se lhe detendo no decote rasgado. Propositado o decote. Propositada a indiferença.
Quando Pedro regressa ao chaparro A Menina lia à sua sombra. Fingia ler. Aproximou-se sem retraimento, Boas tardes..! Ela fingiu surpresa, sorriu, Não sabe ler, lá adiante diz “propriedade privada”! Eu gosto de girassóis, preciso de água, e lá não diz “proibida a passagem”. Ela fixou-se de novo no livro, desconcertada, ele subiu à árvore, recuperou seus haveres e, ignorando-a, foi lavar-se junto ao poço. Uma bonita rapariga acostumada a ser cobiçada, mas a aragem de irritação que lhe passou nos olhos não foi suficiente para lhe refrescar as carnes, vendo-o afastar-se livrando-se da t-shirt. Pedro consciente do efeito que estaria a produzir, ela segui-lo-ia hipnotizada. Decidiu prático permitir-se um pouco de prazer. Livre como o Sol e os sons que respira, e livre de remorso e culpa, não procurara fêmea nem seduzira esta mulher intencionalmente, aprazia-lhe o sexo como a qualquer adulto na sua idade.
Inês cai da árvore. Passara dias atrás de dias no alto do pinheiro que costumava trepar com Pedro vendo o rio escorrer brandamente, pensando, procurando um estratagema que o trouxesse de volta. E nada. Sem saber como, o quê ou o porquê, algo lhe estremece violentamente as entranhas, as pernas, a alma, e uma tonteira, uma atarantação. Cai como um fruto maduro demais. Como um maracujá dessecado, um pêssego esquecido ou uma pinha vazia. Ou como uma cotovia prematura empurrada pelo irmão cuco.
Algo perturba Pedro. Algo não identificado lhe corrói a tranquilidade, lhe acelera os hábitos, lhe esvazia os sentidos. Inquietação. Um desconforto anónimo injustificado. Apreensão, constrangimento, premonição. Vai telefonar para casa, saber da saúde e do estado de espírito, do desamparo, da saudade.
O campo de baixo, o seu preferido desde criança, o que se esparrama até ao rio, por trabalhar, que ninguém lá vai, as irmãs e a prima quase não saem de casa, amedrontadas com o acontecido, Que aconteceu? Vê lá tu que neste fim de mundo um meliante que continua por identificar violou a Inês, lá para baixo, junto ao rio... A pobrezinha nunca mais voltava, foram encontrá-la já noite cerrada, toda esmurrada, ensanguentada, amarrada a um pinheiro. O coração de Pedro pára. Inês? Sim, a filha do médico, que já está uma mulherzinha. O coração de Pedro voltou a bater, revolto, agora descompassadamente, no mesmo despropósito em que a respiração se desenfreava. E todos os órgãos num destempero solidário. Esquece os tomates, os girassóis, o chaparro, A Menina, a liberdade, a fuga. Dói-lhe a consciência e o sacrifício.
Não vos podia deixar sós, Que bom ter-te de volta, meu filho! A mãe rejubila, a avó reza, as irmãs tranquilizam-se, a prima reaquece, a tia benze-se, a cadela urina-lhe os pés, a gata roça-se-lhe nas pernas, as galinhas riem como concubinas excitadas, as coelhas querem dar à luz a maior ninhada de todos os tempos, as oliveiras dão azeite no lugar das azeitonas, as amendoeiras florescem despropositadamente, as vinhas embriagam-se, a população comenta, a mulher do padeiro acha poder ter mais sorte desta vez, a vizinha suspira sonhadora, a filha do padre agradece a Deus, a mulher do médico louva a Deus, (Deus encolhe os ombros resignado,) e Inês consegue o quer. Pedro. E Pedro voltou. Voltou para não mais lhe escapar. Nem resistir.
Encontram-se à beira rio, Telepatia. À sombra do velho pinheiro, à vista das mesma águas que escorrem brandamente, Pedro e Inês. Preciso-te para me curar. Inventam O Beijo. Abraçam-se. Sentidamente, delicadamente, apaixonada e ferozmente. As mãos dele escorrem-lhe brandamente dos ombros, as dela agatanham-lhe a pele meio suada, trepam, amarinham, cravam-se-lhe na carne. Definitivamente. Intercepta-o uma pequena mancha de sangue. Um sangue anacrónico, inesperado, imaculado. Prende-a pelos ombros, interrogativo, sacode-a.
Uma farsa.
Um estratagema para o fazer voltar.
Uma cilada para que a possuísse.
mariabulac, 2002